domingo, 20 de dezembro de 2009

VIAGEM PAÊBIRÚ I (ENCONTRANDO O GRITO)


Eu, esse peso urbano, avenidas e concreto nas palavras,
Durmo e engulo fumaça, e máquina, telas, e-mails.
Meus sonhos anunciam:

Você não pode perder! É a última chance! Últimas peças no estoque!
compre dois leve um! Pra fazer você feliz! Porque você merece!
Seja! Faça! Tome! Coma! Durma! Vote! Pare! Vá! venha!
Pra fazer você feliz! dois por um!

Você merece... Você merece...

Meus ouvidos se inundam
Vis trombones:

Cala a Boca!

Íntimo outdoor piscando o vermelho:

Cala a Boca!

...Sórdido letreiro!

Cala a Boca!




(...)




Mas algo me grita inteiro!

VIAGEM PAÊBIRÚ II (REENCONTRANDO O OLHAR)


O olho da dor – o gozo da rasteira?
O olho que adentra e vibra pedindo derrota?
Perdi-me de suas janelas...

As casas coloridas, as pedras, olho de irmão,
Olho poeta, que risca fogo no céu, inventa palavra,
Dança na roda, o pé bate de um lado, o mundo gira,
no passo da volta só o novo, negras, vestidos estampados

Está aceso:

Meu olho queima!

Trago:

O olho vivo.

Solto:

Minha cegueira.

O vento dilacera o fio branco da fumaça
Não há mais forma nisto tudo!

(des)for(matei) de fome!

O olho de quem?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Rascunho>>

Rascunho>>
cada dia mais saudades sinto de ti>
diante desta ausência que não me faz esquecer>
que em cada momento de todo o instante>
existe a semelhança da tua alma com a minha.>>

Que nossos pensamentos são iguais,>
como iguais são as opiniões,>
os nossos gostos e os dessabores>
iguais somos nós.>>

Iguais até na diferença>
Diferentes nas igualdades>
Igualmente distantes>
E espiritualmente próximos.>>

Não tão distantes, quanto sinto>
Pois, estamos unidos pelo mesmo sentimento:>
SAUDADE.>

usspicui

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Pele de Onagro e a Morte no Horizonte da Existência

Dostoiévski colocou uma questão intrigante e desafiadora: Se não há imortalidade, tudo é permitido? De que modo censurar em alguém o prazer vicioso e sem limites do presente, em prol de um prazer de um futuro incerto de uma vida virtuosa pautada pela sabedoria?

Balzac, escritor francês do século XIX, escreveu várias obras de uma qualidade elogiável. Uma destas foi o romance A Pele de Onagro, primeira dele que se destacou no meio crítico. É um romance que faz a mistura de elementos realistas e fantásticos. Embora original, tem um enredo que lembra um pouco o Fausto de Goethe, que insatisfeito com os frutos de sua vida intelectual, vendeu a alma ao diabo a fim de obter poder e experimentar um sentido satisfatório na vida.

Raphäel é o protagonista principal. Jovem pobre, de talento intelectual distinto e com uma insaciável vontade de experimentar os prazeres de uma sociedade parisiense aristocrática, cheia de encanto, com suas mulheres coquetes, com seus banquetes e todos outros atrativos de uma vida voltada ao elegante, ao extravagante, ao belo, ao alegre e ao dinheiro. Após desprezar Pauline, moça linda, por ser pobre, apaixona-se por uma mulher coquete e sem coração Fedora. Enfim, desprezado friamente por esta, apesar de todos sacrifícios financeiros, feitos sob a falsa aparência de status e riqueza, o mesmo se lança à vida do jogo onde encontra sua ruína total. Nesta situação deseja morrer.

No dia que decide se matar, encontra um velho que lhe oferece um talismã mágico, uma pele de onagro (uma espécie de jumento do oriente). Nesta havia uma inscrição em sânscrito: "Se me possuíres, possuirás tudo. Mas tua vida me pertencerá. Deus quis assim. Deseja, e teus desejos serão realizados. Mas regula teus desejos por tua vida. Ela está aqui. A cada desejo, decrescerei assim como teus dias. Queres-me? Toma-me. Deus te atenderá. Assim Seja."

Raphäel aceitou possuir o talismã, sem levar muito a sério as consequências do poder destruidor do mesmo. O primeiro desejo foi participar de uma grande festa, cheia de orgias, com convidados ilustres, jovens, alegres e intelectuais, com belas mulheres ardentes e com muita bebida. O que aconteceu. E depois desejou ficar milionário. O que também aconteceu. Tal foi a surpresa dele quando percebeu que a pele de fato estava diminuindo.

É neste ponto que a morte surge no horizonte da existência. Raphäel apercebeu-se de que a cada desejo satisfeito sua vida ia se aproximava do fim, por conta do pacto que fez ao tomar para si o talismã. Interessante é que quando vivia numa situação de pesar, sofrimento, humilhação e pobreza, a vida era-lhe desinteressante. Mas, agora, tendo todo poder para desfrutar da fama e dos prazeres, a vida agora lhe aparecia como algo de alto valor. Temendo a morte, Raphäel tornou-se praticamente um eremita, isolou-se na sua mansão a fim de não se colocar em situações nas quais seus desejos pudessem ser despertados. Mas, não podia evitar o contato social, que aos poucos foi lhe seduzindo.

Durante todo o restante do livro, Balzac mostra a relutância e os cuidados de Raphäel para adiar sua morte, o que era algo inútil. Pois a morte se afigurava como uma realidade inevitável, uma vez que era impossível viver uma vida sem desejos. Porém, surge uma questão para o leitor: Inevitável não é a morte para todos os seres humanos, independente do talismã ou não? Eis uma das condições da existência. Condição esta que torna a existência humana, caracterizada como uma infinda fuga do presente, como uma fuga para o nada. O homem que se orienta sempre a um futuro, vislumbra no horizonte da existência a Morte.

Que vale ter um poder de satisfazer todo desejo se este poder não é suficiente para deter o destino inexorável que é a Morte? Neste contexto de uma existência condicionada à mortalidade, que implica na finitude da vida, na limitação e na restrição de uma vida insaciável de desejos, surge a questão prática de como se portar na vida. Orientar a existência à busca da virtude e da sabedoria ou então ao esgotamento de todas energias na busca por uma satisfação, inconseqüente, de todos os desejos, usufruindo de um prazer instantâneo e vicioso?

Nesta obra Balzac desafia-nos a censurar racionalmente a prostituta, que imprudente, cheia de vícios e extravagâncias interpelada sobre seu futuro responde: "O futuro? ... Que é que chama de futuro? Por que hei de pensar numa coisa que ainda não existe? Nunca olho para trás nem para diante de mim. Já não é bastante ter de me ocupar com o dia inteiro duma vez só? Além disso, o futuro já conhecemos, é o asilo." Preferindo viver uma vida voltada aos prazeres, enquanto durar os encantos da beleza, esta mulher prefere a vida cheia de vícios, ciente de que possivelmente terá uma velhice desconfortável e sem encanto desprezada pelos homens. Raphäel parece incapaz de censurar esta mulher e mesmo intrigado com o comportamento da prostituta, reflete através de uma pergunta retórica com seu amigo que independente do modo de vida "quer vivamos com os sábios ou morramos com os loucos" o resultado é, cedo ou tarde, o mesmo.

Concluindo, Balzac coloca em sua obra, A Pele de Onagro, a questão do significado da existência e o impacto da morte sobre ela, fazendo refletir sobre a fragilidade até mesmo de um poder ilimitado para satisfazer um querer insaciável. E por fim fica a questão: que diferença faz para um ser, que só pode vivenciar um presente fugidio, o estilo de vida vicioso ou virtuoso, sábio ou louco, prudente ou inconseqüente, se a morte até agora tem se mostrado como um destino inevitável?

Johannes Alienus Amens.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Macbeth - Destino e Liberdade: Uma Leitura Existencialista do Macbeth de Shakespeare

Macbeth foi um personagem cruel de uma das mais sombrias peças teatrais que Shakespeare escreveu, cujo título leva o mesmo nome de seu protagonista. A obra, mesmo sendo, é claro, uma ficção explora um lado obscuro da humanidade, cuja análise fornece elementos esclarecedores das condições existenciais do homem.

A presença de figuras mitológicas e sobrenaturais, tais como a deusa grega Hécate, espíritos e fantasmas, bem como o papel proeminente das três bruxas, com todo enredo girando em torno do Destino e das Profecias feitas a Macbeth e a Banquo, logo no início, podem levar à uma idéia de que Macbeth tenha sido apenas um fantoche nas mãos da Necessidade, a cumprir um Destino, uma vez que este foi traçado a priori por forças "sobrenaturais".

Logo na primeira cena do primeiro ato, aparecem as três bruxas, cientes dos acontecimentos políticos, aguardando o final duma batalha, em que Macbeth estava participando, para poderem então de modo premeditado se reunirem e se encontrarem com este no pântano. E este encontro acontece logo após o Rei Duncan ter nomeado Macbeth barão de Cadwor, recompensado-o pelo modo como lutou e se portou na batalha. Neste ponto do drama, Macbeth é visto como um herói, homem nobre, digno de honra e de confiança. Uma imagem totalmente oposta da que ele veio a ficar sendo conhecido, como tirano sanguinário cujo nome tinha sinônimo de horror.

Sugestiva são as palavras finais das três bruxas no ato 1, cena 1: "Faire is faule, and faule is faire..." que podem ser traduzidas com uma expressão paradoxal: "o belo é feio e o feio é belo". Esta idéia é marcante em toda obra, onde os julgamentos dos personagens estão constantemente equivocados, tomando várias vezes o nobre pelo vil e o vil pelo nobre. Macbeth, visto como herói pelo Rei Duncam, revela-se depois como pior do que o antigo barão de Cawdor, que se rebelou contra o reino e foi executado por traição. É interessante esta idéia de ambiguidade, pois a existência sendo distinta da essência, carrega em si toda uma série de ambiguidades, onde num movimento dialético, alternam-se elementos contrários entre si, na formação de uma síntese, como o feio e o belo, que às vezes coexistem numa mistura estranha.

Esta tragédia gira em torno da idéia lançada no primeiro encontro das bruxas com Macbeth e Banquo. Elas dirigem àquele três saudações, chamando-o primeiramente de barão de Glamis, depois barão de Cawdor e por fim de futuro Rei. Neste momento Macbeth ignorava que o Rei Duncam o havia nomeado barão de Cadwor. E fica surpreendido com tais saudações. Depois de inquiridas, as bruxas também se pronunciaram acerca de Banquo, dizendo-lhe que este não seria rei, mas teria filhos reis. Aqui, Macbeth e Banquo são apresentados a um Destino "traçado". Mas, será que este estava mesmo determinado de antemão?

Embora, Shakespeare faça uso de figuras sobrenaturais, míticas e fantásticas, pode-se notar que as ações de Macbeth, bem como os acontecimentos que o levaram a ser rei e mais adiante levaram à sua morte, seguem um curso bem natural. As palavras das bruxas, mais do que profecias, podem muito bem ser entendidas como motivadoras e manipuladoras, explorando a vaidade e orgulho das condições psicológicas humanas de Macbeth e Banquo. Afinal, quando elas o saudaram de barão de Cawdor, ele já havia sido nomeado.

Macbeth então tem diante de si um Destino anunciado. Poderia evitá-lo? Em sua vaidade e em seus desejos mais ocultos do coração desejava ser Rei e portanto escolhe ir ao encontro de seu Destino. Mas, ele não se coloca como alguém passivo, esperando que a Necessidade lhe torne Rei, mas ele mesmo dá um jeito de ir ao encontro de seu Destino anunciado. No começo, houve nele uma luta entre o ser (seu desejo) e o dever-ser (obrigações morais). O ser do desejo de ser Rei conflitava contra o Dever-Ser moral de não atentar contra a vida do Monarca. Porém, com a influência "maléfica" de sua esposa, Lady Macbeth, a quem relatou apenas parte das profecias, omitindo as palavras proferidas à Banquo, ele então comete o assassíneo do Rei Duncan, aproveitando o fato de que este estava hospedado em sua casa, durante uma noite. Um ato visto como altamente imoral e covarde.

Após o fato consumado, Macbeth passa a sofrer dos sintomas da culpa, sinal de que ele se sentia responsável e livre diante da escolha que fez. Ele matou o Rei, sujou as próprias mãos de sangue, num ato vil e terrível, digno de toda censura. Como sintoma da liberdade e responsabilidade, ele e a esposa passaram a ser atormentados pela consciência e sentimento de culpa.

Um ato assim, do assassíneo do Rei, precisa ser mantido, consequentemente para manter a situação sob controle, outros crimes surgiram à medida que outros personagens surgiam como ameaça. Chega um momento que Macbeth inverte o status de sua relação com o Destino, que no começo era desejado, agora repudiável. Ele então passa a lutar contra o mesmo Destino à qual pouco tempo antes, ele mesmo fez questão de ir ao encontro. Por exemplo, Banquo passou a ser uma ameaça, pois o destino foi o anunciou como sendo aquele que teria filhos reis. Macbeth se revolta então com a idéia de que tudo o que ele fez, todo tormento à qual se submeteu, tenha sido realizado em benefício de outros e que no fim, por meio de sua ruína, reinaria os filhos de Banquo. Por isto providencia a morte de Banquo e de seu filho com o objetivo de extinguir a ameaça nadificadora do seu Destino. O fato de Fleance, filho de Banquo ter escapado, funcionou como uma fonte de angústia. Ele não poderia viver agora em paz, pois o filho de Banquo vive. E o Destino figurava no campo das possibilidades futuras.

A figura mitológica da deusa grega Hécate, mais as sobrenaturais aparições de espíritos, surge neste contexto auxiliando as três bruxas para o desfecho final da trama. Mas, novamente, o que temos são pronunciamentos dirigidos à Macbeth funcionando mais como elementos indutivos e provocadores do que profecias. O objetivo destas figuras maleovolas era então produzir uma Confiança excessiva em Macbeth, que segundo Hécate consiste na maior inimiga do homem. Macbeth é incitado então a atentar contra a vida do nobre Macduff. A segunda aparição de modo dúbio e enigmático faz com que Macbeth pense ser alguém praticamente invulnerável, dizendo que este não poderia ser morto por nenhum homem nascido de mulher. Por fim, a ele é dito por uma terceira aparição: "Seja valente como um leão, orgulhoso, e não dê atenção aos outros. Eles que se irritem, eles que se queixem, eles que conspirem onde bem entenderem. Macbeth jamais será vencido, a menos que o Grande Bosque de Birnam marche contra ele, vencendo as doze milhas até os altos da Colina Dunsinane." (Ato IV, Cena I).

Ora, aqui Macbeth é induzido a se comportar imprudentemente, segundo as intenções de Hécate: "Ele vai menosprezar o Destino e zombar da Morte, e nutrirá suas esperanças sem levar em consideração o bom senso, a delicadeza de espírito e os receios dos mortais." (Ato III, Cena V). Na trama, o filho do Rei Duncam, junto com Macduff, cuja família havia sido morta cruelmente a mando do tirano, receberam apoio militar dos ingleses para investir e destituir Macbeth, que com seu excesso de confiança agiu imprudentemente, não fazendo nenhum esforço para se proteger do perigo.

Sua esposa, atormentada pela culpa, sentindo constantemente suas mãos sujas de sangue, morre num ambiente de desolação. Ao receber a notícia da morte de sua esposa ele tenta minimizar o fato com palavras carregadas de um eloquente pessimismo existencial:

"Ela teria de morrer, mais cedo ou mais tarde. Mais tarde haveria um tempo para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco - faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado." (Ato V, Cena V)

Logo após falar isto, Macbeth tem sua confiança abalada, quando é noticiado que o Grande Bosque de Birnam estava marchando contra ele, isto porque os soldados inimigos se camuflaram com os galhos deste bosque, fazendo uso de uma tática de guerra. E depois quando fica sabendo, no momento que lutava com Macduff, seu inimigo irado e com sede de vingança, que este não nasceu de parto normal. Inconformado e não querendo ser humilhado, não se rende, lutando até ser decapitado por Macduff.

Lendo esta tragédia pode-se perceber que em todo momento Macbeth se encontra numa situação de liberdade. Uma liberdade relativa às condições existenciais, pois esta liberdade coexiste com o Destino e com ele se relaciona. Porém, este Destino não é caracterizado por um elemento essencialista e sim como sendo a consequência das escolhas livres que faz Macbeth. A liberdade não precisa ser pensada como sendo algo pertecente somente a quem é onipotente sobre as condições existênciais, mas está presente sempre que existe alguma forma de possibilidade de ação associada às escolhas mas poder de execução. Sob as condições psicológicas, Macbeth escolheu satisfazer seu desejo de se tornar Rei, mesmo contrariando sua própria consciência e o bom-senso e as consequências de um regicídio. Escolheu acreditar apenas naquilo que a ele era favorável. Agiu de má-fé ignorando a Razão nas situações mais cruciais, que no fim culminaram em sua morte.

Concluindo, ao escolher ser Rei daquela forma, Macbeth traçou de modo livre, para si mesmo um Destino, cujo fim não tinha muitas chances de bom êxito. A obra termina e não menciona nada sobre quem sucedeu o trono. O futuro fica em aberto. O personagem Shakespeareano é um personagem humano, condicionado pela estrutura psicológica, física e social e nestas condições, sendo livre para fazer escolhas, sempre tendo como possibilidade ir por outro caminho, mesmo que seja o caminho da nadificação total da existência na recusa de se submeter às condições existenciais.

Johannes Alter.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

(Com)Sequências


Um olhar
Um sorriso
Um carinho
Um beijo


Uma troca de olhares. Coisa parecida com aquele filme francês que você ama, mas que tem uma cena que você nunca entende. Essa é a cena. Algo despretensioso, acidental, sem começo, sem meio, sem fim. Apenas uma troca de olhares...

O sorriso vem depois. Surge "mecanicista". Quase uma obrigação. O simples ato de contrair e esticar músculos da face. Depois, larga a metalização e torna-se humano. Tão humano quanto podemos ser. Sai do frio e transforma-se em algo verdadeiro. Ai deixa de ser humano...

O carinho segue. A mão que acaricia a mão amada, que brinca com os cabelos, que roça o rosto (que ainda contém o sorriso "não-mais-humano" da etapa anterior), a troca de calor, de sensações... Que faz carinho ser carinho. Carinho de criança.

Surge o beijo. Molhado, seco, longo, veloz, roubado, "vagabundo", "principe", quente, frio, escondido, escancarado, timido, desinibido... Beijo.

Beijo, carinho, sorriso, olhar... e tudo se faz assim, belo e simples...


*Agradecimentos à Lorena pela ajuda na pesquisa de uma boa imagem...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Quanto pesa a morte de um trabalhador?




Tomba mais um - guerreiro de mão calejada, herdeiro desta luta.
Tomba mais um – filho esquecido do estado, destratado em desmedida.
Leva consigo o trabalho, e a pesada memória, de sua vida roubada.

Não será lido nos jornais, nem debatido nos bares,
É mais um que cai na vala do inconsciente coletivo,
Sepulcro da amnésia diária, da lembrança proibida, que nos entala à mesa,
E nos cega de melodramas e sonhos voláteis, com propaganda e sorrisos.

Amanhã pegaremos o ônibus, leremos um livro, compraremos pães, iremos a festas.
Engoliremos calados: a educação das fileiras, o destrato, e o aumento dos preços.
Sem que nos pese a morte, sem que nos pese a fome, sem que nos pese a dor.

Alheios à sua coragem, e de tantos outros, ouviremos um parecer técnico,
Uma análise sócio-econômica, uma mensagem bonita no programa matutino.
Choraremos por isso, e pelo final da novela, glorioso destino do moçinho.

Mas, não daremos lágrimas à sua morte.

Enquanto nós, frios corpos, urbanóides frenéticos a procura do melhor lugar na prateleira deste hipermercado de trabalho, buscamos um sentido, uma droga, um remédio pra depressão, um casamento, uma vida perfeita,
Outros pelejam a vida, dia a dia,
Negando o morrer constante,
A dignidade usurpada.

Levantam a cabeça – longe de nossa insensibilidade – alargam seus braços,
Atiram seus gritos, denúncias, sua força coletiva, sua incansável firmeza.
Destinam-se a enfrentar, corajosos, as encomendas de morte destes covardes de ternos, de posses e possessões.
Mil vezes Covardes! Que pra silenciar o povo, pagam por força e capuz, armadilha, escopeta, e tiro na nuca.

Tomba mais um - por manter seu punho erguido, e não minguar de febre ou fome.
Sofre o seu povo, com suas flores de luta e seu vermelho encarnado a tremular nas bandeiras.
Tomba mais um...
Quantos mais serão necessários? Para que nos canse a morte?
Quantos mais serão necessários? Para lutarmos em vida?

* sobre uma liderança do Movimento dos Atingidos por Barragens, executado numa emboscada em 29 de julho de 2009, em Pedro Velho, reassentamento dos atingidos pela construção da barragem de acauã, em Aroeiras – PB.
*vídeo sobre a situação dos atingidos pela barragem de Acauã - www.mabnacional.org.br/noticias/150609_video_acaua.html

domingo, 2 de agosto de 2009

Silêncio


[...]








































NADA!











































Agora só consigo escutar sua ausência de resposta.




























Eis que reina o silêncio.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Declaração Universal dos Seres Aleatórios


Alguns textos vem e vão na nossa vida. Esse constantemente surge para mim... Alguns conhecem...

Declaração Universal dos Seres Aleatórios


Somos do sol e de lua, mas podemos xingá-los.

Somos Headbangers, punks, goths, mas a música vizinha sempre atrai.

Somos Ateus apegados a Deus

Somos a sinestesia

Somos a bipolaridade

Somos a verdadeira esquizofrenia do mundo.

E talvez, a sua maior diversão

Não temos futuro, não temos dinheiro, mas temos bebida!

Somos frutos do acaso.

Filhos bastardos da vida, e sem direito a herança!

Nas nossas veias não correm sangue, correm dados

Padrão genético de nossa aleatoriedade.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ausência

Ente da realidade sensível,
Procuro-te com meus olhos,
Ávidos e ansiosos para te encontrar.
Mas, em todo lugar,
O que vejo,
O que percebo,
O que apreendo
É apenas a ausência de ti.
Examino toda extensão do Ser,
Do ser sensível da minha realidade.
Mas, em nenhuma parte,
Eu consigo encontrar-te.
Como podes não-ser?
Se até agora a pouco eras?
Mistério que consome minh'alma.
Que sob o peso do nada, desaba.
Não consigo entender o porquê.
O porquê do ser pleno não me satisfazer.
O porquê do não-ser ser
Fonte de Melancolia,
Causa de Temor,
Motivo de Angústia.
Mas, o ente está aqui!
Está aí!
Está por aqui!
Mesmo eternamente sendo,
Em breve, desvanecerá como fumaça.
E tudo quando vou ver.
É a ausência de ti!
E mais um pouco, ausência de mim.
De um Mim que sempre foge,
Que escapa de mim.
Oh, que dialética cruel e generosa da vida!
Marca perene da existência,
Paradoxo absurdo que mistura
A dor e o gozo, o pesar e o prazer,
Na unidade sintética de meu ser.

Johannes Absente, 8 de Julho de 2009.

domingo, 5 de julho de 2009

A alucinação


Do anúncio:

Franze o aposento aos demais
Com presas miúdas e atemporais
Defronta e se capta nos terremotos
Nas dunas se tinge, fecunda aos remotos

Apalpa lobos, colore o jardim
Cerca nevoeiros, vestindo cetim
Rompida esbelta, a sombra confronta
O que alvoroça os pardais pela zona

Ela se reserva entre obscuros planos
Que são eminentes dos punhais profanos
Num ato espalhafatoso, é breve o reboliço
Das testemunhas distraídas desse precipicio

Sem pudor, aviso ou qualquer vergonha
Vinda dos vermes latentes, enfadonha
Encravada como gramínea, apetece
Instigada naquilo que perece

Sedenta, pálida, encarnada e hostil
A alucinação me é sóbria e sutil

Carlinhos Black

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Noite de Inverno

Olhe em volta e veja
nada volta no final
É tudo um grande erro
de quem ama e quer

Ela não é apenas mulher
é fruto do teu desejo
que, bruto e carnal,
parece chama acesa

Ó grande e fraco aprendiz
indeciso pequeno e roto
quão miserável é tua sina
se por ela não lutas mais

te perdes nos vendavais
ao saber que tua menina
por querer de um destino louco
é de outro, meretriz

olhe em volta e veja
nada foi, a final
se perdeu em vontades
grandes tentativas nulas

abertas as ruas rubras
se esvai em partes
e o fluido bruto e carnal
pelo chão se despeja

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A Eterna Duração da Efemeridade.


Na infinita extensão da eternidade
O que é a vida de um ente finito?
Cujo existir essencialmente é um não-ser.
Um não-ser isto, um não-ser aquilo,
Mesmo sendo isto, mesmo sendo aquilo.
Efêmera é a vida, é como um sonho,
Mas, também como um pesadelo.
É um faustivo ou trágico impermanecer,
Um impermanecer no gozo e na alegria,
Um impermanecer na dor e na tristeza.
Vejam o presente! Tarde demais!
Eis que já se foi, é um passado.
Avista-se ao longe o Futuro.
Mas, ele é névoa de indeterminação.
Eu passei por aqui! Eu existi. Eu vivi.
Vivi momentos faustivos de contentamento.
Que elevaram ao êxtase a minh'alma.
Mas, todos estes momentos são não-ser.
Vivi momentos de pesar, angústia e vazio.
Que esmagaram com peso infinito meu coração.
Mas, todos estes momentos, também, são não-ser.
Toda existência é um eterno infindo perecer.
Perecem belezas,
Perecem nobrezas,
Perecem as dores,
Perecem os amores,
Perecem os sentimentos.
Que busca o ente finito?
Que insensata é esta busca inútil por existir!
A vida é toda ela feita de amor, ou seja, de gozo,
Ou seja, de dor.
Pois o que se ama perece, desaparece,
Pois o amar desvanece, se esquece.
Mas, só é dor, porque foi gozo.
Só é não-ser, porque foi ser.
Quem experimenta as plenitudes da vida,
Maximiza as angústias do vazio nas perdas.
Lamentar pra que? As coisas são o que são.
Algumas coisas duram mais,
Outras duram menos,
Mas, todas elas passarão do ser para o não-ser,
Para que o não-ser passe a ser.
E assim, infinda e infinitamente,
Gira a roda de Íxion por toda eternidade.

Johannes Absente, 19 de Junho de 2009.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sereia


Vasta como as cachoeiras, suave como o orvalho
Néctar de todas as friezas, mística do orgasmo
É viscosa a sereia dos reclames alucinatórios
Na lucidez dos insensíveis lamentos compulsórios
Centenas de anagramas iludem o seu propósito
Elabora-se o realístico, saram-se os relógios
Numa tríade de subjetividade:
Amaríssima, fria e intocável
Veta-se à congruência da eternidade
Externada aos privilégios dos detrimentos culturais
Transcende a erudição, sacudindo a impaciência
Reparte os líquidos em doses ressurgidas
Ínfima, nebulosa, é lívida a tontura dos aventureiros
Eles se afundam em tantas pragas, que são deprimentes
Cultuam dilemas e emblemas, navegando inconscientes
Lendários náufragos que adormecem para sempre

Carlinhos Black

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sou o ENTE que mora na tua IMAGINAÇÃO

Eu sou uma pura abstração de ser.
Sou fumaça que escapa do nada.
Pura aparência de um aparecer.
Calor d'uma vaporação saturada.
E nada, do nada, para nada,
É onde, de onde, para onde,
Tudo se concilia e se converge
Formando uma substância fantástica
Constituída pela ação da tua imaginação
Guiada com a regra da fria Razão
Ou pela anarquia do insano Coração.
E em vão, é querer me tornar são,
Pois no oceano profundo da indistinção,
Não há diferença de conotação.
Não sou isto,
Nem sou aquilo,
Sou isto ou aquilo.
Sou matéria de uma forma desvanecida,
Que esvara por teus in-sentidos imaginários,
Dando-lhe o gozo de uma faustiva esperança,
A presença in-sólida de um louco sonho,
Ou então, a dor aflitiva da perdição,
A ausência sólida de uma lúcida chaga,
Que faz gemer a alma na antecipada solidão.
Não sou dor,
Nem sou in-dor,
Sou dor ou in-dor.
Sou a figura fantasmagórica do irreal
Que afeta a tua estranha realidade.
Sou o ente que habita perenemente
No interior da sombra de tua mente
Resido nos castelos de sonhos da Esperança.
Ou então nos calabouços trágicos da Angústia.
Enfim, sou teu e para-ti no impertencer,
Pois sou o nada real de tua rica mente!

Constantin Constantius.

domingo, 17 de maio de 2009

Jurisprudência








Vou pedir uma indenização por cada lágrima
E como, eu poderia saber?
Por que essa mudança agora?
Por que não em outra hora?

Iria eu poder processá-lo?
Por incentivar a tolice se nada ter feito?
E quem iria me advogar neste pleito?

Esse é aquele tipo de causa perdida
Não se pode entrar com recurso
Mudar um discurso e tudo ser igual

Acho que o ideal seria a terapia
Numa base de utopia “curar” completamente esse mal
Não poderia haver vingança
Relatar apenas as lembranças para o meu “Doutor”

E com isso esqueceria as ciências jurídicas
E entenderia minhas “patologias” como “normais”
Quem sabe assim mudaria de área
Numa felicidade encontrar tranqüilidade na soma exata
Porventura outro ramo humano
Para deixar meu coração menos tristonho

Passado o fardo e os meus pré-julgamentos
Lembro que a base de toda a realização
Está na importância desse autor
De traduzir dores tão sofridas relacionar com a vida
E nada sobrepor.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Mordida na maçã do tempo.

“Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?” (Tom Zé)

“O tempo andou mexendo com a gente sim” (Belchior).


A maçã foi mordida, lembrou-me a moça. Tocou assim, com unha vermelha, a carne aberta e ferida de uma memória amassada. O espírito de passado reavivado é cativo destas coisas ditas, que como pequenas pedras, nos ferem os pés. O incômodo é agudo e o corpo – gruta escura das lembranças – guarda no fundo da água do espírito, o que não foi vomitado de indignação. Não culpo a moça, que assim desdenhosa de meus tormentos morais, simples e espontânea me disse: “Minha relação é mais aberta que a minha janela”. Mas suas palavras - faca no lençol do tempo - deixaram cair assim aos trambolhos um monte de roupas sujas. Vendo aquela bagunça, saída dos porões do meu tempo, e agora escancarada às vistas de quem quisesse espiar intimidades, caí em arapucas da cuca, prendi o pé no visgo da memória: Pode! Não Pode! Você não Pode Poder! Você não Pode! O pudor? Você é despudorado! Ouço isto desde pequeno, ouço quando isto é falado! Ouço quando o que fala é a mudez! Ouço quando quem fala é o padre! Ouço, ouço também minha mãe, em cem bocas ouço a minha mãe, a mesma cantinela e a sandália em riste. As pessoas gostam mesmo de jogar rótulos na cara dos outros. Gostam mesmo! Até gozam com isso! Assim, por prazer, como quem joga no mal palhaço uns tantos quantos tomates, vaias e bolas de papel. Você não é fiel! Você me traiu! Você me ama! Você é um covarde! Você é meu! Você é profano! Você! Você! E as frases reverberam pelos corredores invisíveis de largos significados. O problema não é fazer palavra. O problema é fazer uma cerca na palavra e dizer: Daqui até ali é certo. De lá em diante se erra. A cerca que me implantaram na alma é dura de atravessar. Do outro lado tem jagunços, com os dentes muito firmes e um dedo no gatilho. Tenho medo de bala nos peitos. Tenho um medo revolucionário de dizer, Olha, não nos matemos de enquadramento, dói demais em mim estas retas. Tenho um medo revolucionário de levar estas cercas na raça, de ocupar de pirraça o não-sentido, o errado. Tenho medo, não vou mentir, carrego o tempo nas costas, mas quem sabe? Quem sabe um dia desses o fardo me pesa mais do que o suportável? Aí, ou caio sem forças, tonto e resignado, ou grito e enfrento tiro com coração e palavras.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Uma viagem. Um ritual.


O primeiro passo foi comprar uma carteira de cigarro...

Eu não fumava havia mais de um ano, quando decidi acabar com meu vício. Não que eu tivesse ficado impressionado com aquelas campanhas de saúde contra o cigarro, mas a idéia de ter um pequeno tubinho recheado com uma plantinha mandando na minha vida não me agrada.

Naquele dia, comprei a velha carteira de Lucky Strike. O momento merecia...

Entrei em casa jogando minhas roupas no chão. Entrei direto para um banho demorado. Queria lavar qualquer vestígio dos problemas da minha vida. Mulher, trabalho, imposto de renda, trânsito, meu time... Que desçam todas pelo ralo e vão para a puta que o pariu! Enxuguei-me e fui até a cozinha. Tirei aquela garrafa de Jack Daniels e coloquei uma dose, sem gelo. Senti o cheiro e lembrei do meu pai. A noite seria também em homenagem aquele velho tarado. Perfeito, mas tarado...

Fui até a sala e tirei a preciosidade da embalagem. Passei os dedos ao redor, sentindo a textura, a profundidade dos arranhões, a capa destruida... tudo aquilo me dava um tesão enorme. Foi dificil encontrá-lo, mesmo com as facilidades da Internet. Dois anos... Dois anos! Mas a busca valeu cada gota de suor e cada redução do meu limite do cartão. Depois de namorá-lo por longos minutos, coloquei-o para tocar.

As primeiras notas preencheram o ar de maneira firme. Senti os pêlos do meu braço arrepiarem-se quando os primeiros acordes do Baixo chegaram ao meu ouvido. O dedilhado pulsante transmitia uma torrente de sentimentos inigualável. A guitarra, quase falando, contava-me suas esperanças, lamúrias, desilusões. Falava da mulher amada. A mulher cruel... O vozeirão, rouco, trazia à tona uma dor lancinante, quase insuportável. Aquela música devia ser a única maneira de expressar o que ele sentia. Uma bela maneira, devo dizer... A cada música daquele disco velho, um sentimento aflorava em mim. Raiva, paixão, ódio, alegria, nostalgia, amor... Eu me tornava a guitarra, o cantor e a dor...

Continuei ali sentado, sorvendo minha bebida e fumando meu cigarro. Podia passar horas ali. Na realidade, podia até morrer ali e nem notaria. Eu já estava acostumado com todo esse ritual...

A minha sexta sempre tinha um destino.


Eu sempre viajava pelo Blues...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

pelo amor de todos os amores


Pelo amor de todos os amores

Não coloque regras no amor.
Basta-nos de tantas leis
Que se por um lado nos
Leva ao instituicional
E momentaneamente certo
Também nos conduz a uma
Vida Abitolada.

Para que regrar algo tão bom.... e livre?
É!!! Possivelmente deve ser
Para a satisfação dos que não
Conseguiram amar verdadeiramente.

Dê-se ao amor, ame de todas
As formas, de todos os jeitos,
Mas não de todos os jeitos, como uma obrigação.
Ame da sua maneira.
Ame até a vontade de não amar.
Mas não imponha barreiras ao amor dos outros.
Pelo amor de todos os amores!!!

Ame o branco com o preto;
O fino com o grosso;
O belo e o feio;
Todos a apenas um e
Quem pode até este um a todos,
A todas, A estes, A aqueles,
Aos seus, Aos meus, Aos deles,
Aos meus de novo,
Ame-se ódio e o amor.
Ama-se a amar o ódio.

Ninguém ama porque quer.
Porque o outro quer. O outro que regrou.
Ama-se. Porque se ama.
Antes de qualquer coisa,
De qualquer pensar,
De qualquer agir,
De qualquer querer seu ou do outro.
Apenas, e pura, e simples, e
Essencialmente ama.
Porque não se amar de qualquer jeito
Se de todo jeito é amor???????????????USS


07-07-2007

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Formigueiro

Todo dia a formiguinha
Trabalha arduamente.
Carrega consigo folha
Do ofício e de papel.
Carrega também areia,
comida e o que mais acode.
Só não carrega amargura,
Pois pesa em demasia;
Muito mais do que aguenta
Com o suor do trabalho.

E seria ato falho,
Tal qual carga bolorenta,
Deixar de escrever poesia
Pra mais bela criatura,
Dando um tempo que não pode
A algo que só permeia
Se para de olhar pro céu
Sonhando com sua escolha:
Unida eternamente
À sua amada rainha.

Por Nelson Fordelone Neto - 06/06/2009 às 04:40AM

quinta-feira, 19 de março de 2009

Sobre o confronto e a livre manifestação (na ótica de quem leva porrada)

Em casa, atolado por uma série de atrasados, com a cabeça demasiado concentrada nos prazos desobedecidos da universidade, vejo-me de súbito atravessado por uma notícia severa – navalha no tempo que me leva a um passado recente – minha participação nas lutas contra o aumento das tarifas do transporte público em Campina Grande. Ocorre que a notícia me chegou pelo telefone, quando um amigo preocupado com a violência utilizada pelos policiais na “contenção” da manifestação contra o aumento das tarifas de R$ 1,55 para R$ 1,70, me ligou perguntando sobre a situação.

Corri para o rádio, sintonizei alguma destas “que prestam serviço à comunidade” (como costumam repetir os jornalistas), e fiquei à espera de alguma notícia. Esperei, tendo que ouvir impaciente algumas declarações dos protagonistas da cena política paraibana sobre a “restruturação” do governo, dos cargos, como também, sobre as próximas eleições – A pergunta incessantemente repetida (talvez para dar um ar de importância a este fato, que em última análise, já que nada muda de fato, é banalíssimo), era: Quem será candidato?

Depois de muito esperar, já cansado de asneiras, ouvi no final do programa de notícias, uma passagem rápida, apagada, sobre o incidente que me desconcentrara dos estudos, mais ou menos assim: “Estudantes secundaristas (esqueceram eles de falar que também universitários), ocuparam as ruas de Campina Grande para protestar contra o aumento das tarifas do transporte público. A manifestação foi conduzida até o terminal de integração onde houve confronto com a polícia.

Bem, se me lembro com clareza (e se meu corpo ainda não esqueceu a dor da porrada do cacetete, resultado de uma das manifestações de que participei), a mídia tem destes eufemismos. Quando diz confronto quer dizer: promoção da ordem na base da violência do estado – em detrimento do direito de livre manifestação. Não falaram sequer que oito manifestantes foram levados presos (alguns, que conheço, bem jovens, dezoito, dezenove anos), sob que alegação? Desordem? Desacato à autoridade? Bradar contra o direito legítimo da justiça em decretar um aumento de preços? Discordar do aparente consenso produzido pela força arbitrária daqueles que não só detêm os meios materiais de produção da nossa vida, como também os meios de contenção da liberdade de pensar, de agir, de manifestar-se? Não pode existir confronto, não no sentido pleno da palavra, entre policiais - treinados para a violência, truculentos, e bem instrumentalizados com cacetetes, spray de pimenta, bala de borracha, capacetes, escudos, e todos estes aparatos “robocopizantes” de seu “hábito” (1) - e estudantes armados do pé a cabeça com coragem, consciência, caderno e caneta.

Eu em casa até me sinto um tanto triste, afinal, impedido pela obrigação de estudar, não estive presente nesse suposto confronto. Digo, contudo, aos que se vestem da violência física e simbólica para produzir "verdades", que as nossas verdades (as dos que discordam que o aumento de tarifas é justificável) são produzidas em palavras e atos, sementes de flores vermelhas, que uma vez jogadas ao vento, teimam em brotar no asfalto. A força policial, a justiça e o estado, a mídia – braços de quem tem o poder de ordená-los ( vale dizer, os grandes empresários), podem avançar sobre os nossos corpos, podem até matar-nos, e matam quando julgam necessário, vale o exemplo de El Dorado do Carajás (2). Podem avançar sobre as nossas mentes, conquistando através de um estímulo ao medo, os terrenos de liberdade que ainda nos restam, mas não poderão controlá-las por completo (se até Winston resistiu como pôde ao poder do Big Brother (3))

No fundo da consciência e do corpo, há uma luz que Pablo Neruda recomenda pescar com paciência. Esta luz, oriunda das contradições de um consenso imposto, é energia de luta contra os desmandos que nos ferem o corpo e a alma e quiçá se fará luz mais forte e compartilhada, como a dos “galos tecendo o amanhã” (4).


“Nasceu uma flor no asfalto. É feia mais é realmente uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio” (A flor e a náusea – com edição da minha frágil memória - Carlos Drummond de Andrade).


“Não morrerá a flor da palavra. Poderá morrer o rosto oculto daquele que hoje a nomeia, mas a flor da palavra que veio do fundo da história não morrerá” (Sub-comandante Marcos – com a edição capenga da mesma memória – 4ª declaração da Selva Lacandona – Exército Zapatista de Libertação Nacional).


Viva à rebeldia,


atravessado por todos aqueles que lutaram e lutam por dias melhores.



(1) Entenda-se hábito aqui como uma referência às vestes religiosas. Não é só a arma que sinaliza o poder, o “hábito” que os policiais vestem grita o tempo inteiro o seu autoritarismo.


(2) Referência ao assassinato de dezenove trabalhadores rurais sem-terra no estado do Pará em 1996 – trabalho feito pelas mãos do estado, nosso soberano protetor e estado legítimo de direito.


(3) Referência ao romance 1984, do inglês George Orwell.

(4) Referência ao poema de João Cabral de Melo Neto.

domingo, 8 de março de 2009

Watchmen e a Angústia Humana diante do Nada

Sexta-feira, 6 de março, 2009, estreou nos cinemas um longa metragem do diretor Zack Snyder, Watchmen, baseado num grupo de personagens de uma história de quadrinhos, de Alan Moore e Dave Gibbons, cujo enredo tem como contexto histórico a guerra fria entre USA e a antiga URSS.

Watchmen traz alguns elementos interessantes para se compreender a existência humana coletiva e individual, dentro de determinadas condições históricas, que delimitam as várias possibilidades no horizonte da existência.

Contexto da guerra fria, duas nações potências nucleares, numa tensão nunca vista entre duas ideologias, o capitalismo e o comunismo. Uma guerra era uma possibilidade constante, que efetivada acabaria com toda vida humana. O contexto então, para os indivíduos era de Angústia. Pois a humanidade estava beirando o abismo do Nada. E a possibilidade deste Nada afetava qualitativamente as perspectivas futuras de todo projeto humano. Neste contexto surge a figura metafórica da Angústia: O Relógio do Fim do Mundo, que chegou a ser ajustado a um minuto para zero horas. Sendo que zero horas simbolizava o fim do mundo.

No meio deste contexto, haviam alguns heróis, pessoas moralmente ambíguas, que sintetizavam em si as possibilidades morais, tanto positivas como as negativas. Eram chamados de os Vigilantes, e combatiam o crime, no patamar da Irracionalidade, pois os critérios objetivos e racionais da Lei, não eram os seus critérios. De modo que tempos mais tarde, foram rejeitados pela própria sociedade.

Estes heróis eram humanos, demasiadamente humanos. Com exceção do Dr. Manhattan, todos os outros não tinham nenhum poder extraordinário e mágico. Eram homens e mulheres inexplicáveis em termos rigidamente conceptuais da moralidade. Neles havia uma tensão constante entre a animalidade instintiva e a espiritualidade racional. Em termos freudianos, poderia-se dizer que neles, também, Id e Super-ego travavam uma constante luta. Em termos mais tradicionais, diria-se que havia neles uma tensão constante entre o Estético e o Intelecto. Elementos Irracionais em oposição com os Elementos Racionais da Existência de um Indivíduo Humano. Nem mesmo o herói de poderes extraordinários escapava desta ambiguidade, quando trocou sua mulher mais velha por uma mais nova.

A ameaça da nadificação do Projeto Humano numa possível guerra nuclear causava um efeito interessante sobre estes heróis. Ser herói é se distinguir dos demais seres humanos. Pois o herói se destaca por algumas qualidades. E isto faz a Diferença. E ser diferente é um dos maiores bens da Individualidade. Ser diferente de tudo o mais é a prova mais concreta de que se é alguma coisa e não um nada ou uma parte indiferente. É a garantia de que não se é apenas uma gota d'água no Oceano. Nada é tão angustioso a um ser humano como a possibilidade da indiferenciação. Uma das maiores dores é a dor de ser tratado com indiferença sem poder impor sua diferença.

Porém, no contexto de Watchmen, a ameaça nuclear, nivelava em termos de angústia e indiferenciação todos os humanos, até mesmo os heróis. Que poderiam eles, os heróis, fazer diante de um poderio bélico tão grande, em que 1% das bombas eram suficientes para extinguir a raça humana? Eles não tinham poderes suficiente para deter de modo mágico o fim do mundo. Eis que os heróis foram afetados de tal forma que o clima tornou-se de melancolia e desânimo.

O desfecho do enredo é interessante. Uns dos personagens consegue arquitetar e executar um plano genial baseado na filosofia ética do utilitarismo: o maior bem para o maior número de pessoas possíveis. Colocando em tensão o bem do indivíduo e o bem social, optando sempre por este e não por aquele. No entanto, os meios utilizados não foram nada louváveis...

Concluindo, Watchmen, é um romance que expõe a humanidade de um modo otimista e pessimista, retratando o homem em seus elementos irracionais e racionais, em sua ambigüidade moral, em sua impotência diante de ameaças absolutamente destrutivas, enfim em sua angústia diante da insignificação do Nada ameaçador do Ser, presente em cada indivíduo, até mesmo nos mais notáveis , os heróis.

Johannes, em estado estético!

sexta-feira, 6 de março de 2009

Ilusão



Na esperança de encontrar-me, busquei-me em tudo e todos. Nos olhos que nunca observei, lábios que nunca provei, caixões que nunca repousei, pores-do-sol que nunca assisti, estrelas que nunca vi, ou seja, me procurei numa vida que nunca vivi.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Ballad of Fallen Angel


A queda foi dura. Dolorosa.

Levantou-se. A mão, vermelha pelo atrito com o solo, latejava no mesmo ritmo das batidas do seu coração. A respiração fluía com dificuldade. No rosto, sujo de terra, escorria uma fina gota de sangue. Ele sangrava...

A dor na nuca só aumentava. Confuso, começou a olhar o cenário ao seu redor. Nada lhe era familiar. Não sabia onde estava e por que estava naquele lugar. Passou a mão pela testa, para enxugar o suor. Sentiu um corte perto do longo cabelo. A mão retornou rubra.

- Sangue?! Mas como...

Um arrepio atravessou-lhe o corpo. Seu rosto pálido voltou-se para as costas. Elas não estavam mais lá! O seu mais precioso tesouro!

Lembrou-se do que lhe ocorrera: A desobediência. A rebelião. A punição... Tudo estava claro agora.

Suas asas foram cortadas...

Agora, uma corrente de pensamentos lhe vinha à mente. Raiva, medo, culpa, tristeza... Perdera a liberdade, algo que tanto prezava. Só que todos estes se abriram, como numa roda, cercando a lembrança de uma frase do seu velho mestre:

- A sina dos anjos caídos é se tornarem demônios...

Um sorriso iluminou sua face...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Outra dose de lágrima

Sim. Eu quero um vício novo. Esse último já está me corroendo, me matando aos poucos e me transformando numa louca... O vício que todos querem, o vício que todos precisam eu adquiri e provei do seu doce mel...e me tornei diabética. Faz-me mal hoje. E fará a todos que não souberem dosar, portanto previno a todos. Antes que buscarem tal vício, pensem na dor mais fina e mais forte de uma faca perfurando sua garganta, para que os nós das palavras que você não disse possam sair...

Antes de buscarem esse vício, lembrem que secarão de tanto chorar...Farão força para sair uma sequer lágrima, nem que seja uma de crocodilo e de nada adiantará. Você ouvirá as musicas mais depressivas e se ientificar com um verso de cada uma, o que fará com que você as escute seguidamente...E fique fazendo as mesmas perguntas tolas de sempre...

Você não lembrará mais das coisas boas, e quando e se lembrar, vai querer chorar...e não vai poder...Vai lembrar do quanto mudou por esse vício e quanto ainda poderia mudar... Vai começar a hipotetizar tudo...Até o que poderia ter sido e não foi...

E a pior parte de todas, se ainda assim lhe oferecerem mais um dose desse vício, você a aceitará, nem que seja por mais um segundo de satisfação... É...o amor vicia...e pode matar.

"Você só me fez mudar
Mas depois mudou de mim"
Você pode ir na janela- Gram

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Anominado


Rabisco... Eu sujo as idéias que ainda não apareceram. Nesses riscos exponho o que há de mais impróprio. São as constatações de uma visão determinista e imutável da mudança.
O que é mais livre do que o ato de se expor? De se transformar? O que é mais livre do que ser a exposição do determinismo interno?!
Mostrar-se como nécta da vida, valorizar a aspereza das frustrações, machucar-se com a queda dos grandes saltos.
Ser livre é escrever palavras soltas no rabisco que é o ser humano, tentar decifrar a tempestade do ser que é a liberdade.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

UM POR QUÊ

As inconstâncias do mundo me sobressaem!
Não sei o que faço, nem sei fazer o que nem sei o quê.
São confusões, conflitos...
São tristezas, dor!
O que fazer para esquecer a dor, a dúvida?
Como dissipar o conflito?
Quando cessará a tristeza?
De que forma orientar minhas confusões?
Eu não sei. Ninguém sabe!
Preciso de remédio, de cura, de bússola.
Preciso de paz, de lenço.
Preciso de alegria e sorrisos
Preciso e nem sei como
Acho que sei sim o porquê dessa tristeza, desse tormento, dessa incerteza...
SOU EU!
Incrivelmente, preciso de mim!
De voltar-me a mim mesma, de me olhar, de me enxergar.
Saber disso, me dá a absoluta convicção que sei do que preciso,
Sei o que fazer e o porquê de tudo.
Mas como (...)?



Imagem:
http://tantodemim.blogs.sapo.pt/arquivo/duvida.jpg

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Bolero de Ravel: Tensão Dialética entre a Idealidade e a Realidade



Ouvindo a peça musical Bolero de Ravel minha consciência não foi afetada somente pela beleza estética desta obra de arte! Beleza que produziu em mim um certo êxtase de valor inefável. Ao ouvi-la meus sentidos sentiram um gozo e satisfação estética formidável.


Sim, não foi somente meus sentidos estéticos que foram afetados... Ao ouvir a música, a melodia da mesma, em seu constante eterno retorno e ritmo invariável e uniforme, foi se manifestando à minha consciência como se fosse um espectro fantasmagórico que a cada repetição ia ganhando solidez até se tornar como algo totalmente concreto diante dos meus olhos.

Eis que esta música afetou minha Razão de tal forma que apreendi na diversidade de toda aquela repetição a Essência Melódica. Diversidade esta, manifesta ora através dos sons de instrumentos de sopro, ora por meio dos sons dos instrumentos de corda, ora até mesmo por intermédio dos sons das vozes imitando as notas musicais. Eis que foi não somente sublime e belo, foi também inteligível. Porém, um inteligível ininteligível.

A melodia repete e repete várias vezes. Ela é a mesma sempre. Sempre no mesmo ritmo invariável. Teimoso! Persistente! Eloquente! E a cada vir a ser da mesma Idéia melódica, uma Existência Sonora totalmente Singular e Particular ganha Vida! A mesma idéia, tocada em tonalidades diferentes, por meio de instrumentos diferentes, aparece a cada instante de modo totalmente novo e irrepetível. Aparece como sendo uma realidade particular incomparável e altamente individualizada.

Eis então, nesta peça musical, a dialética da essência com a existência em que: o Um torna-se Muitos, o Eterno torna-se Temporal, o Mesmo torna-se Outro, o Ideal torna-se Real, o Universal torna-se Particular. E em toda a diversidade da aparição repetitiva desta pequena melodia, apreende-se então o Paradoxo Absurdo do Intelecto que concebe versus a Sensação que percebe. Absurdo porque não é possível realizar a síntese, ficando o reino do Intelecto em tensão constante com o reino da Sensação.

Enfim, o Bolero de Ravel gerou em mim não somente um sentimento e prazer inefável, mas também a captação inteligível da Absurda Razão. Eis que o Belo é Ilógico! Eis que a Idéia é Absurda! Pois como pode ela ser e não ser si mesma? Ahhh, isto vai contra as leis inexoráveis da Lógica! A Melodia existe. Ela está em todas as repetições. Porém, nenhuma das repetições é ela.

Johannes, em contemplação absurda da Beleza do Mundo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Blues da Menina

Menina dos olhos cor-de-doce
Canto-lhe baixinho um Blues
Para sonorizar teu sono
Para trazer-lhe sonhos
e, talvez, amores.

Menina dos olhos cor-de-doce
Canto-lhe baixinho um Blues
Dedilhado n'alma
Onde as cordas da dor
Dão o tom. Dão o tom...

Menina dos olhos cor-de-doce
Canto-lhe baixinho um Blues
No compasso de teu coração
Lento, porém ritmado.
Belo, porém triste.


Menina dos olhos cor-de-doce
Amo-te, não nego
Mas só há como demonstrar-lhe isso
Cantando-lhe baixinho um Blues
Sussurado ao teu ouvido...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Mensagem instantânea


Desde o espaço entrecortado pela tela-tela, que me olha e te observa. Desde a dimensão entrecortada pela luz de um bilhão de cores a se juntar, imagem em tempo e verso, por onde expresso a voz do profundo, em toques sensíveis no teclado preto. Desde a memória irrecuperável - com a mão no queixo, calado, espero.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Pela Pena de Morte

À primeira vista pode parecer um comentário ao estilo ultraconservador elitista feito por um playboy que acabou de ser assaltado. Mas ao expressar tal idéia, não me refiro a criminosos de baixo escalão, emergentes das classes desfavorecidas (muito menos a mim mesmo como “playboy”)... Refiro-me a bandidos realmente perigosos, inescrupulosos e que respaldam suas exemplares atitudes na vontade popular: os políticos.

Seria injusto responsabilizar toda a classe pelos problemas sociais que nos estigmatizam. O célebre jornalista político, Franklin Martins sempre afirmou que apesar de haver um descrédito geral com relação aos políticos, existe, mesmo entre eles, uma grande disposição em melhorar a situação do país.

No entanto gostaria de agredir e fazer um clamor pela aplicação da pena de morte a alguns políticos interessados sobremodo em aumentar os dividendos bancários e a própria permanência no poder às custas da “soberania popular”, termo que eu nunca vi tão distorcido nos últimos anos. Segue a lista:

Cássio Rodrigues da Cunha Lima, vulgo Diabo da Paraíba, acredita (ou diz acreditar) que a decisão [unânime] do TSE pela sua cassação será revista [eu vi isso aqui]. Para os que estiveram mais alheios ao processo que durou 1 ANO E 6 MESES e até agora se arrasta, o motivo DESTA cassação foi a compra de votos em período eleitoral utilizando o famigerado cheque-moradia. A defesa alega que o recurso é previsto em lei e também no orçamento (ou seja, legalizaram a compra de votos). Sem entrar nos méritos jurídicos do processo, consideremos como justa a decisão unânime dos 7 juízes do TSE (não, ninguém com juízo compra um juiz federal que ganha muito mais do que sonhamos ganhar um dia, quanto mais sete!). Outro argumento da defesa, que se estende a muitos paraibanos, é que o governador que foi eleito pela “soberania popular” (1.003.000 - um milhão e três mil votos) não deve ter seu mandato extirpado pela justiça. Ora, considerando que 35 mil cheques da FAC compraram 35 mil famílias que devem ter em média 2 ou 3 integrantes (talvez mais) em condições de votar, imagine quantos beneficiados ajudaram a “soberania popular” a se consolidar.

Ainda se arrasta em instância inferior outro processo de cassação, desta vez pelo uso do jornal oficial do Estado, A União, como ferramenta eleitoreira (eu posso afirmar não só como jornalista, mas como amigo de outro jornalista que defendeu sua monografia em cima de um estudo científico feito sobre o conteúdo do referido jornal no período de julho a novembro de 2006, que Cássio usou sim o periódico como meio de se reeleger).

Cícero Lucena foi pego pela Polícia Federal com a mão na massa e saiu algemado de sua residência, logo após o fim mandato. O motivo foi o singelo superfaturamento de obras na Capital que permaneceram inacabadas (entre elas o canal do Bessa, que fica logo ali, atrás da minha casa). O pior é que esse elemento foi eleito senador do estado da paraíba (com minúsculas mesmo). – nesse momento quase sai um palavrão aqui –

Tá bom, isso já tem mais de dois anos, não adianta mais chorar. O que me faz defender a pena de morte para indivíduos assim é o fato de um imundo desse querer macular o atual prefeito, Ricardo Coutinho [acredite, eu vi isso aqui]. Cícero acha que tem moral suficiente para clamar ao Ministério Público Federal que investigue a atual administração. Se você acha isso coerente, por favor... – quase sai outro palavrão –

Já tomei muito o espaço do blog com esses picaretas, mas existem muitos outros: Eitel Santiago (que afirma não existir pistolagem na Paraíba... imagina...), Efraim Morais (um dos maiores adeptos da pistolagem na Paraíba... tá explicado...), Carlos Dunga (sanguessuga), Ney Suassuna (sanguessuga)... falando em sanguessuga, vocês sabiam que, à época, SEIS dos DOZE deputados federais paraibanos e um senador estavam envolvidos?

Talvez eles não mereçam a morte... talvez os eleitores paraibanos mereçam a morte. E estão pagando com a vida [literalmente] pela decisão equivocada. O Hospital de Emergência e Trauma vive em crise, os hospitais do interior servem de estábulo, a segurança policial no estado praticamente inexiste e o governo não negocia... pelo contrário, simplesmente fecha os olhos e ignora um problema que está nu à frente de todos!

É de matar!

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Acabou a bebida...
E a lucidez volta a me atormentar
As ilusões me abandonaram
E a realidade insiste em me assombrar.

Descobri que minhas lágrimas pesam mais que água com sal...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Fado de Sísifo


Em seu olhar, o brilho opaco da salvação,
Em seu rosto, a realidade da doce loucura,
Em suas pernas, o esforço fatigante àquela altura,
Em suas mãos, o empurrar uma pedra em vão!
E em vão, vão-se os dias e ele naquela labuta,
Numa guerra, em que se trava uma inútil luta!
E que luta! Luta absurda! Luta perdida! Perdida a priori!
Mas, em su'alma, a esperança irracional a posteriori.
Enfim, o regozijo de ver a pedra no ponto mais alto da montanha.
Trabalho feito! Desfeito! Eis a pedra rolando ao pé do monte.
Enfim e que fim! Agora não mais é regozijo, mas prejuízo!
Em suas mãos, o nada de nenhuma tensão,
Em suas pernas, o movimento leve da descida,
Em seu rosto, a idealidade amarga da razão,
Em seu olhar, a opacidade brilhante da perdição!

Amens, Ilúcido na Plenitude da Razão!

domingo, 25 de janeiro de 2009

Espelho Mágico da Reflexão

(Composição poética à amada Consciência Tética*)

Contemplo este espelho mágico
Que se põe diante de mim
Como sombra que me acompanha
E que somente descansa
Nas trevas mais escuras d'alma,
Onde o Nada que sou reina absoluto!

Mas no brilho d'alma translúcida,
Captura de modo incessante,
Em todo eterno instante
Cada movimento do que sou
De minha inessência original
Hipostasiando todos fragmentos,
Que se desfragmentam em reflexos,
Formando um substrato, nem bom, nem mau,
Que apenas obedecem seus nexos.

De forma ilogicamente lógica
Numa constante dança dialética
Vai operando uma síntese ontológica,
Sempre, da sobra do que restou
Da subtração do nada que sou
Mas, sobras de onde sempre estou.

Eis a magia deste espelho
Engana-me fazendo pensar
Que se penso, então logo existo
Mas, nem por isto subsisto
Pois cada imagem refletida, escolhida
Vai a cada instante ganhando vida
E viva! Faustiva! Cada imagem me diz,
Com voz leve e silenciosa:
Ich bin nicht Sie! Sie sein nicht ich!**

Alienus, constantemente para si!

*Consciência Tética é a consciência que coloca diante de si mesma a consciência que tem do mundo, que envolve a própria consciência de si.
**Tradução do alemão: Eu não sou você! Você não é eu!

domingo, 11 de janeiro de 2009

Dia de sol e mar: desventuras de um barquinho solitário.

Domingo é dia vazio: abre espaço no peito para a vez da crise, erra o leme que de certo entende o des-norte. Neste barquinho simples, estamos sempre buscando um canto, um lugar autêntico: um lugar nosso? Para uma viagem tranqüila, um caminho para uma ilha, um recanto de repouso, paz e felicidade. Ah... mas o barco que nos guia, em mar, vento e desventura, não é experiência de dentro que realizamos fácil e doce como em sonho. Este mar nós dividimos, e há os esfarrapados, os descabidos no mundo, que se penduram, sobem por força, temendo a fome e a morte, fazem pela insistência balançar o bote – nossa propriedade privada. Nós, do centro de nosso recanto existencial, aprendemos a raiva a estes que não tendo barco querem nos ocupar, nutrimos assim o bicho estranho da posse (com ração e Jornal Nacional), que nos faria derrubá-los e matá-los a pau, não fosse o estado, a justiça e a polícia, que servem para dar cabo destes vis, mas, supostamente justificados impulsos. Domingo é dia vazio, nos faz desgarrar o leme, é dia vazio de porta aberta, por onde entram incertezas, elas, quem sabe? Nos levarão ao fundo do mar, agarrados aqueles que não têm barcos existenciais a vagar num dia de domingo. Será que enfrentando as ondas no braço e no peito, ladeando o desespero dos que lutam pela vida, não nos ocorre que a busca pela felicidade em ilhas de prateleiras, romances e propagandas, se aproxima à busca de um tesouro perdido. Não fala a TV que o precioso tesouro não está em mercadorias, mora, ao contrário, perdido nos valores, de nos estranharmos barcos solitários, e reconhecermos que estando nos barcos ou fora deles somos a humanidade que navega para a recriação ou para o fim.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Reação?

Parecia tão sozinha,
Suplicando atenção...
Por sua vida pregressa
Queria se confessar.

Meu peito não tinha ar.
Destino me pregou peça.
Eu, que vivo em solidão,
Sentindo que ela era minha!

Tinha os olhos suplicantes.
Em meus braços quis afeto
E tinha o corpo tão quente,
Pulsando junto ao meu

Proibido de amar, eu,
Com minha moral dormente,
Como no esterco, um inseto,
Amei por alguns instantes.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

País das maravilhas

Do sabor
a saudade

Do sonho
a sombra

Do sim
o sem

Do nosso
o nojo

...

Da infância
Ao inferno.