domingo, 8 de março de 2009

Watchmen e a Angústia Humana diante do Nada

Sexta-feira, 6 de março, 2009, estreou nos cinemas um longa metragem do diretor Zack Snyder, Watchmen, baseado num grupo de personagens de uma história de quadrinhos, de Alan Moore e Dave Gibbons, cujo enredo tem como contexto histórico a guerra fria entre USA e a antiga URSS.

Watchmen traz alguns elementos interessantes para se compreender a existência humana coletiva e individual, dentro de determinadas condições históricas, que delimitam as várias possibilidades no horizonte da existência.

Contexto da guerra fria, duas nações potências nucleares, numa tensão nunca vista entre duas ideologias, o capitalismo e o comunismo. Uma guerra era uma possibilidade constante, que efetivada acabaria com toda vida humana. O contexto então, para os indivíduos era de Angústia. Pois a humanidade estava beirando o abismo do Nada. E a possibilidade deste Nada afetava qualitativamente as perspectivas futuras de todo projeto humano. Neste contexto surge a figura metafórica da Angústia: O Relógio do Fim do Mundo, que chegou a ser ajustado a um minuto para zero horas. Sendo que zero horas simbolizava o fim do mundo.

No meio deste contexto, haviam alguns heróis, pessoas moralmente ambíguas, que sintetizavam em si as possibilidades morais, tanto positivas como as negativas. Eram chamados de os Vigilantes, e combatiam o crime, no patamar da Irracionalidade, pois os critérios objetivos e racionais da Lei, não eram os seus critérios. De modo que tempos mais tarde, foram rejeitados pela própria sociedade.

Estes heróis eram humanos, demasiadamente humanos. Com exceção do Dr. Manhattan, todos os outros não tinham nenhum poder extraordinário e mágico. Eram homens e mulheres inexplicáveis em termos rigidamente conceptuais da moralidade. Neles havia uma tensão constante entre a animalidade instintiva e a espiritualidade racional. Em termos freudianos, poderia-se dizer que neles, também, Id e Super-ego travavam uma constante luta. Em termos mais tradicionais, diria-se que havia neles uma tensão constante entre o Estético e o Intelecto. Elementos Irracionais em oposição com os Elementos Racionais da Existência de um Indivíduo Humano. Nem mesmo o herói de poderes extraordinários escapava desta ambiguidade, quando trocou sua mulher mais velha por uma mais nova.

A ameaça da nadificação do Projeto Humano numa possível guerra nuclear causava um efeito interessante sobre estes heróis. Ser herói é se distinguir dos demais seres humanos. Pois o herói se destaca por algumas qualidades. E isto faz a Diferença. E ser diferente é um dos maiores bens da Individualidade. Ser diferente de tudo o mais é a prova mais concreta de que se é alguma coisa e não um nada ou uma parte indiferente. É a garantia de que não se é apenas uma gota d'água no Oceano. Nada é tão angustioso a um ser humano como a possibilidade da indiferenciação. Uma das maiores dores é a dor de ser tratado com indiferença sem poder impor sua diferença.

Porém, no contexto de Watchmen, a ameaça nuclear, nivelava em termos de angústia e indiferenciação todos os humanos, até mesmo os heróis. Que poderiam eles, os heróis, fazer diante de um poderio bélico tão grande, em que 1% das bombas eram suficientes para extinguir a raça humana? Eles não tinham poderes suficiente para deter de modo mágico o fim do mundo. Eis que os heróis foram afetados de tal forma que o clima tornou-se de melancolia e desânimo.

O desfecho do enredo é interessante. Uns dos personagens consegue arquitetar e executar um plano genial baseado na filosofia ética do utilitarismo: o maior bem para o maior número de pessoas possíveis. Colocando em tensão o bem do indivíduo e o bem social, optando sempre por este e não por aquele. No entanto, os meios utilizados não foram nada louváveis...

Concluindo, Watchmen, é um romance que expõe a humanidade de um modo otimista e pessimista, retratando o homem em seus elementos irracionais e racionais, em sua ambigüidade moral, em sua impotência diante de ameaças absolutamente destrutivas, enfim em sua angústia diante da insignificação do Nada ameaçador do Ser, presente em cada indivíduo, até mesmo nos mais notáveis , os heróis.

Johannes, em estado estético!

2 comentários:

Gilliard disse...

No fim, o mais humano de todos era o Dr. Manhattan...

Lunnäe Psï disse...

É interessante esse contexto em que traz a tona todos os anseios e temores do ser humano, e o mais impressionante é que o ser humano é realmente um ser ambiguo, o mais incompreensivel de todos. E olha que somos o objeto e pesquisador num mesmo corpo e vontade. Somos os mesmos que pesquisa as nossas proprias dores. Fiquei interessada d+ na história, assim que puder verei o filme, volto pra comentar algo depois conhecer mais afundo os persnogens.
Brilhante, narração Constantin!