domingo, 5 de julho de 2009

A alucinação


Do anúncio:

Franze o aposento aos demais
Com presas miúdas e atemporais
Defronta e se capta nos terremotos
Nas dunas se tinge, fecunda aos remotos

Apalpa lobos, colore o jardim
Cerca nevoeiros, vestindo cetim
Rompida esbelta, a sombra confronta
O que alvoroça os pardais pela zona

Ela se reserva entre obscuros planos
Que são eminentes dos punhais profanos
Num ato espalhafatoso, é breve o reboliço
Das testemunhas distraídas desse precipicio

Sem pudor, aviso ou qualquer vergonha
Vinda dos vermes latentes, enfadonha
Encravada como gramínea, apetece
Instigada naquilo que perece

Sedenta, pálida, encarnada e hostil
A alucinação me é sóbria e sutil

Carlinhos Black

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Noite de Inverno

Olhe em volta e veja
nada volta no final
É tudo um grande erro
de quem ama e quer

Ela não é apenas mulher
é fruto do teu desejo
que, bruto e carnal,
parece chama acesa

Ó grande e fraco aprendiz
indeciso pequeno e roto
quão miserável é tua sina
se por ela não lutas mais

te perdes nos vendavais
ao saber que tua menina
por querer de um destino louco
é de outro, meretriz

olhe em volta e veja
nada foi, a final
se perdeu em vontades
grandes tentativas nulas

abertas as ruas rubras
se esvai em partes
e o fluido bruto e carnal
pelo chão se despeja

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A Eterna Duração da Efemeridade.


Na infinita extensão da eternidade
O que é a vida de um ente finito?
Cujo existir essencialmente é um não-ser.
Um não-ser isto, um não-ser aquilo,
Mesmo sendo isto, mesmo sendo aquilo.
Efêmera é a vida, é como um sonho,
Mas, também como um pesadelo.
É um faustivo ou trágico impermanecer,
Um impermanecer no gozo e na alegria,
Um impermanecer na dor e na tristeza.
Vejam o presente! Tarde demais!
Eis que já se foi, é um passado.
Avista-se ao longe o Futuro.
Mas, ele é névoa de indeterminação.
Eu passei por aqui! Eu existi. Eu vivi.
Vivi momentos faustivos de contentamento.
Que elevaram ao êxtase a minh'alma.
Mas, todos estes momentos são não-ser.
Vivi momentos de pesar, angústia e vazio.
Que esmagaram com peso infinito meu coração.
Mas, todos estes momentos, também, são não-ser.
Toda existência é um eterno infindo perecer.
Perecem belezas,
Perecem nobrezas,
Perecem as dores,
Perecem os amores,
Perecem os sentimentos.
Que busca o ente finito?
Que insensata é esta busca inútil por existir!
A vida é toda ela feita de amor, ou seja, de gozo,
Ou seja, de dor.
Pois o que se ama perece, desaparece,
Pois o amar desvanece, se esquece.
Mas, só é dor, porque foi gozo.
Só é não-ser, porque foi ser.
Quem experimenta as plenitudes da vida,
Maximiza as angústias do vazio nas perdas.
Lamentar pra que? As coisas são o que são.
Algumas coisas duram mais,
Outras duram menos,
Mas, todas elas passarão do ser para o não-ser,
Para que o não-ser passe a ser.
E assim, infinda e infinitamente,
Gira a roda de Íxion por toda eternidade.

Johannes Absente, 19 de Junho de 2009.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sereia


Vasta como as cachoeiras, suave como o orvalho
Néctar de todas as friezas, mística do orgasmo
É viscosa a sereia dos reclames alucinatórios
Na lucidez dos insensíveis lamentos compulsórios
Centenas de anagramas iludem o seu propósito
Elabora-se o realístico, saram-se os relógios
Numa tríade de subjetividade:
Amaríssima, fria e intocável
Veta-se à congruência da eternidade
Externada aos privilégios dos detrimentos culturais
Transcende a erudição, sacudindo a impaciência
Reparte os líquidos em doses ressurgidas
Ínfima, nebulosa, é lívida a tontura dos aventureiros
Eles se afundam em tantas pragas, que são deprimentes
Cultuam dilemas e emblemas, navegando inconscientes
Lendários náufragos que adormecem para sempre

Carlinhos Black

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sou o ENTE que mora na tua IMAGINAÇÃO

Eu sou uma pura abstração de ser.
Sou fumaça que escapa do nada.
Pura aparência de um aparecer.
Calor d'uma vaporação saturada.
E nada, do nada, para nada,
É onde, de onde, para onde,
Tudo se concilia e se converge
Formando uma substância fantástica
Constituída pela ação da tua imaginação
Guiada com a regra da fria Razão
Ou pela anarquia do insano Coração.
E em vão, é querer me tornar são,
Pois no oceano profundo da indistinção,
Não há diferença de conotação.
Não sou isto,
Nem sou aquilo,
Sou isto ou aquilo.
Sou matéria de uma forma desvanecida,
Que esvara por teus in-sentidos imaginários,
Dando-lhe o gozo de uma faustiva esperança,
A presença in-sólida de um louco sonho,
Ou então, a dor aflitiva da perdição,
A ausência sólida de uma lúcida chaga,
Que faz gemer a alma na antecipada solidão.
Não sou dor,
Nem sou in-dor,
Sou dor ou in-dor.
Sou a figura fantasmagórica do irreal
Que afeta a tua estranha realidade.
Sou o ente que habita perenemente
No interior da sombra de tua mente
Resido nos castelos de sonhos da Esperança.
Ou então nos calabouços trágicos da Angústia.
Enfim, sou teu e para-ti no impertencer,
Pois sou o nada real de tua rica mente!

Constantin Constantius.

domingo, 17 de maio de 2009

Jurisprudência








Vou pedir uma indenização por cada lágrima
E como, eu poderia saber?
Por que essa mudança agora?
Por que não em outra hora?

Iria eu poder processá-lo?
Por incentivar a tolice se nada ter feito?
E quem iria me advogar neste pleito?

Esse é aquele tipo de causa perdida
Não se pode entrar com recurso
Mudar um discurso e tudo ser igual

Acho que o ideal seria a terapia
Numa base de utopia “curar” completamente esse mal
Não poderia haver vingança
Relatar apenas as lembranças para o meu “Doutor”

E com isso esqueceria as ciências jurídicas
E entenderia minhas “patologias” como “normais”
Quem sabe assim mudaria de área
Numa felicidade encontrar tranqüilidade na soma exata
Porventura outro ramo humano
Para deixar meu coração menos tristonho

Passado o fardo e os meus pré-julgamentos
Lembro que a base de toda a realização
Está na importância desse autor
De traduzir dores tão sofridas relacionar com a vida
E nada sobrepor.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Mordida na maçã do tempo.

“Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?” (Tom Zé)

“O tempo andou mexendo com a gente sim” (Belchior).


A maçã foi mordida, lembrou-me a moça. Tocou assim, com unha vermelha, a carne aberta e ferida de uma memória amassada. O espírito de passado reavivado é cativo destas coisas ditas, que como pequenas pedras, nos ferem os pés. O incômodo é agudo e o corpo – gruta escura das lembranças – guarda no fundo da água do espírito, o que não foi vomitado de indignação. Não culpo a moça, que assim desdenhosa de meus tormentos morais, simples e espontânea me disse: “Minha relação é mais aberta que a minha janela”. Mas suas palavras - faca no lençol do tempo - deixaram cair assim aos trambolhos um monte de roupas sujas. Vendo aquela bagunça, saída dos porões do meu tempo, e agora escancarada às vistas de quem quisesse espiar intimidades, caí em arapucas da cuca, prendi o pé no visgo da memória: Pode! Não Pode! Você não Pode Poder! Você não Pode! O pudor? Você é despudorado! Ouço isto desde pequeno, ouço quando isto é falado! Ouço quando o que fala é a mudez! Ouço quando quem fala é o padre! Ouço, ouço também minha mãe, em cem bocas ouço a minha mãe, a mesma cantinela e a sandália em riste. As pessoas gostam mesmo de jogar rótulos na cara dos outros. Gostam mesmo! Até gozam com isso! Assim, por prazer, como quem joga no mal palhaço uns tantos quantos tomates, vaias e bolas de papel. Você não é fiel! Você me traiu! Você me ama! Você é um covarde! Você é meu! Você é profano! Você! Você! E as frases reverberam pelos corredores invisíveis de largos significados. O problema não é fazer palavra. O problema é fazer uma cerca na palavra e dizer: Daqui até ali é certo. De lá em diante se erra. A cerca que me implantaram na alma é dura de atravessar. Do outro lado tem jagunços, com os dentes muito firmes e um dedo no gatilho. Tenho medo de bala nos peitos. Tenho um medo revolucionário de dizer, Olha, não nos matemos de enquadramento, dói demais em mim estas retas. Tenho um medo revolucionário de levar estas cercas na raça, de ocupar de pirraça o não-sentido, o errado. Tenho medo, não vou mentir, carrego o tempo nas costas, mas quem sabe? Quem sabe um dia desses o fardo me pesa mais do que o suportável? Aí, ou caio sem forças, tonto e resignado, ou grito e enfrento tiro com coração e palavras.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Uma viagem. Um ritual.


O primeiro passo foi comprar uma carteira de cigarro...

Eu não fumava havia mais de um ano, quando decidi acabar com meu vício. Não que eu tivesse ficado impressionado com aquelas campanhas de saúde contra o cigarro, mas a idéia de ter um pequeno tubinho recheado com uma plantinha mandando na minha vida não me agrada.

Naquele dia, comprei a velha carteira de Lucky Strike. O momento merecia...

Entrei em casa jogando minhas roupas no chão. Entrei direto para um banho demorado. Queria lavar qualquer vestígio dos problemas da minha vida. Mulher, trabalho, imposto de renda, trânsito, meu time... Que desçam todas pelo ralo e vão para a puta que o pariu! Enxuguei-me e fui até a cozinha. Tirei aquela garrafa de Jack Daniels e coloquei uma dose, sem gelo. Senti o cheiro e lembrei do meu pai. A noite seria também em homenagem aquele velho tarado. Perfeito, mas tarado...

Fui até a sala e tirei a preciosidade da embalagem. Passei os dedos ao redor, sentindo a textura, a profundidade dos arranhões, a capa destruida... tudo aquilo me dava um tesão enorme. Foi dificil encontrá-lo, mesmo com as facilidades da Internet. Dois anos... Dois anos! Mas a busca valeu cada gota de suor e cada redução do meu limite do cartão. Depois de namorá-lo por longos minutos, coloquei-o para tocar.

As primeiras notas preencheram o ar de maneira firme. Senti os pêlos do meu braço arrepiarem-se quando os primeiros acordes do Baixo chegaram ao meu ouvido. O dedilhado pulsante transmitia uma torrente de sentimentos inigualável. A guitarra, quase falando, contava-me suas esperanças, lamúrias, desilusões. Falava da mulher amada. A mulher cruel... O vozeirão, rouco, trazia à tona uma dor lancinante, quase insuportável. Aquela música devia ser a única maneira de expressar o que ele sentia. Uma bela maneira, devo dizer... A cada música daquele disco velho, um sentimento aflorava em mim. Raiva, paixão, ódio, alegria, nostalgia, amor... Eu me tornava a guitarra, o cantor e a dor...

Continuei ali sentado, sorvendo minha bebida e fumando meu cigarro. Podia passar horas ali. Na realidade, podia até morrer ali e nem notaria. Eu já estava acostumado com todo esse ritual...

A minha sexta sempre tinha um destino.


Eu sempre viajava pelo Blues...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

pelo amor de todos os amores


Pelo amor de todos os amores

Não coloque regras no amor.
Basta-nos de tantas leis
Que se por um lado nos
Leva ao instituicional
E momentaneamente certo
Também nos conduz a uma
Vida Abitolada.

Para que regrar algo tão bom.... e livre?
É!!! Possivelmente deve ser
Para a satisfação dos que não
Conseguiram amar verdadeiramente.

Dê-se ao amor, ame de todas
As formas, de todos os jeitos,
Mas não de todos os jeitos, como uma obrigação.
Ame da sua maneira.
Ame até a vontade de não amar.
Mas não imponha barreiras ao amor dos outros.
Pelo amor de todos os amores!!!

Ame o branco com o preto;
O fino com o grosso;
O belo e o feio;
Todos a apenas um e
Quem pode até este um a todos,
A todas, A estes, A aqueles,
Aos seus, Aos meus, Aos deles,
Aos meus de novo,
Ame-se ódio e o amor.
Ama-se a amar o ódio.

Ninguém ama porque quer.
Porque o outro quer. O outro que regrou.
Ama-se. Porque se ama.
Antes de qualquer coisa,
De qualquer pensar,
De qualquer agir,
De qualquer querer seu ou do outro.
Apenas, e pura, e simples, e
Essencialmente ama.
Porque não se amar de qualquer jeito
Se de todo jeito é amor???????????????USS


07-07-2007

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Formigueiro

Todo dia a formiguinha
Trabalha arduamente.
Carrega consigo folha
Do ofício e de papel.
Carrega também areia,
comida e o que mais acode.
Só não carrega amargura,
Pois pesa em demasia;
Muito mais do que aguenta
Com o suor do trabalho.

E seria ato falho,
Tal qual carga bolorenta,
Deixar de escrever poesia
Pra mais bela criatura,
Dando um tempo que não pode
A algo que só permeia
Se para de olhar pro céu
Sonhando com sua escolha:
Unida eternamente
À sua amada rainha.

Por Nelson Fordelone Neto - 06/06/2009 às 04:40AM