quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sem querer aqui estou...

Minha gente como têm belos textos neste blog.

Saudades!!!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Saudações


O silêncio...

Há muito ele incomodava.

De repente, uma porta se abre. O lugar se enche de luz e vida.

O som entra pelo recinto.

Vamos voltar a falar... Dizer o que se sente.

Os literatas dá as "boas vindas" aos novos, e um "estamos com saudades" aos antigos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Encontro

Às vezes, tudo que se precisa é de um motivo, um olhar, um sorriso, um toque...

E nasce, então, um sentido, um sentimento, uma vontade.

E já se quer estar perto, junto e presente.

Quer-se ser presente, consolo, abrigo...

Assim, fez-se encontro, faz-se presença, traz-se a proteção.

E você percebe que construiu um lar para abrigar o que começou como um nada e num instante, transformou-se no tudo que sempre se quis.

Você compreende, portanto, que já está completo e que já se reconhece como si mesmo, como únicos!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Carlos de Thalisson T. Vasconcelos

[Feitas por elas mesmas]

I

Às vezes acredito desconhecer a saudade
Não a encontro quando estou indiferente à vida
É tudo culpa da angústia que me reparte
Em formato de vazio ou imponente anestesia

Deixo ir solitária a felicidade pálida dos acasos
Juro: alguns segundos e ela some pusilânime
Firo-me por ânsia consciente com o passado
Se a minha dor tivesse corpo, exalaria sangue

Nem melhor nem pior do que o diabo
Como ser humano busco algo superior
Nessa estrada a cada dia eu me acabo
Tropeço nas fraquezas do bobo que eu sou

II

Eis o breve surgir entre os vícios humanos
Paixões profundas naufragando em prazeres
Nesse mar, a areia sobe e desce e fede tanto
Que só sobrevivem os mais estúpidos seres

No meio invisível, as cores dão lugar ao nada
Tudo se confunde, se aproxima e se perde
Fantasia encontra sonho, grita e se afasta
Uma imagem é vendida, outra se esquece

Os amantes desvairados chegam ao êxtase
Descobertos por si mesmos, cometem suicídio
Escravizados pelos seus própros interesses
Reconhecem - a nossa liberdade exige sacrifício

III

Escrever, desenhar, pintar e tornar eterno
O que se sente por qualquer sentido
Primavera, verão, outono e inverno
Fazer da arte o nosso abrigo

O porquê, o senão, o verbo
Eles se adaptam à sensibilidade
Sejamos de espontâneo léxico
Reinventemos tons e imagens

A arte é um sonho livre
Feita para qualquer ser humano
Que pelo menos acredite
Num existir com encanto

IV

Agora escolho a empatia sincera
Hei de ser feliz enfim
Mesmo frágil, creio que ela
Ah, Trata melhor a mim

Por muito tempo quis a dor
Fiz do sofrer um hábito
Criei aversão à palavra amor
Ah, andei tão trágico

Não sei quem sou
Se soubesse, seria entendiante
Desconheci o meu avô
Ah, queria ser comediante

V


Suma, senhora Guerra
Surja, senhora Paz
Quem odeia aquela
Vive sempre mais

Juventude, que tragédia
Geração, oh sonhadora
Uma virtude bela
Maltratada vira zorra

Guerreiros, libertem-se
Lutem pelo todo
Companheiros já crescem
Adeus, ódio oco

I

Descobri que paixões são uma bagatela
Que a vida, idosa e banguela
Trata de findar com o tempo

Percebi que ilusões são contratos
Que se criam de bons atos
Como seguir o passo do vento

Enfim perdi tudo o que queria
Tristeza, saudade e alegria
Deixa estar, eu só lamento

1. Bagatela = Coisa de pouco valor.

II

Sou menino fraco de alma
Sonhador preciso ser
Coração, peço-lhe calma
Se matar-me, irá morrer

Importe-se, por favor
Fazem poesias ao seu existir
Não se enfeite tanto de dor
Bata bem forte a quem vier aqui

Seja meu amigo, ô insuficiente
Prometo contigo agir menos tolo
Dê paz ao que tenho inconsciente
Ouvirei seu grito e lhe trarei consolo

III

Deixar a música falar à minha audição interior
Sem a pretensão de reconhecer nenhum criador
Além do universo?
Sim, senhor.
Esperar os tons agudos para recordar maravilhas
E os tons graves para reabrir as feridas
Do meu espírito?
Sim, senhor.
Oscilar enlouquecidamente entre harmonias
Até parecer que todas são contínuas
E complementares?
Sim, senhor.
Amém.

IV

Talvez a minha imaginação pusilânime se condene
As luzes dentro da alcova à noite eu as prefiro apagadas
Quanto ao meu corpo varonil, ele nunca mente
As imperfeições escritas falam em folhas já queimadas

Dispenso qualquer apanágio divino por agora
Amaldiçoadas sejam as conjecturas
Em cima do céu não se ouvem sinos ou histórias
Na minha mente prevalecem coisas impuras

Prosaico eu nunca serei
Disso todo o mundo tenha certeza
Recuso título de escravo e de rei
Das buscas existenciais persigo a natureza

1. Pusilânime = Covarde.
2. Alcova = Quarto de dormir.
3. Varonil = Másculo.
4. Apanágio = Privilégio.
5. Prosaico = Vulgar.

V

Estouvados sentidos os levam a armadilhas
Irracionais feridos para selvagens cantigas
Infeliz quinhão que decide quantas vidas
Permanecem intactas ou são perdidas

Caça-se por diversão, avareza e mérito
Muito sangue numa guerra unilateral
Os maiores culpados comandam exércitos
Escondidos em títulos de caráter excepcional

Heróis desmascarados perdem seus poderes
Enquanto atônitos jovens os enojam
Em compêndios a inocência foge deles
Tão bandidos quanto os outros se mostram

1. Estouvados = Imprudentes.
2. Quinhão = Destino.
3. Compêndios = Livros didáticos.
4. Atônitos = Pasmados.

VI

Os meus sentimentos devem chegar ao paroxismo sincero
É o que sempre eu juro, busco e espero
Um efeito salutar mesmo que fatalmente incompleto
Sem abono de coisa alguma, construir-se-á o belo

Escreverei uma última epístola
No final estará dito
Sou ser humano, oh vida
Eterno, único e infinito

Ponto, afinal,
nunca é final,
mesmo final,
ponto final?

1. Paroxismo = Mais elevado grau.
2. Salutar = Que faz bem ao espírito e ao coração.
3. Abono = Garantia.
4. Epístola = Carta.

VII

Deus, manda a esperança me visitar quando eu estiver acordado
Ela deverá transformar a minha angústia em outro estado
Porque senão irei virar pedaços, nada mais que pedaços

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O cair da noite.

Escurecia lá fora. Os últimos raios de sol se escondiam no horizonte. Aos poucos a luz ia deixando o mundo. Eu podia ouvir os sons do dia morrendo, como o final de uma música antiga. Eu desliguei a TV, mas não acendi as luzes. Preenchi a pequena sala com o som do meu violão. Acordes menores, claro, era o que o momento pedia. O gelo derreteu em meu copo intocado. Só bebi seu conteúdo após o final da música.

Nessa altura outra luz se fazia presente. À luz clara e brilhante do sol somava-se fraco brilho amarelado dos postes de iluminação. Eu me aconcheguei mais no meu sofá. Os sons da rua mudavam. As buzinas dos carros iam sendo substituídas pelos resmungos desconexos de um bêbado. A fofoca das donas de casa, pelo dramalhão das televisões. Meus pensamentos vagavam por cenas do passado.

O dia chegava ao seu fim sem marcar sua presença. Apenas mais um na sucessão de dias que era minha vida. Era chegada a hora. Não houve hesitação ou medo. Nem choro ou desespero. Os vizinhos não acharam nada estranho. Os sons, já comuns e velhos conhecidos, receberam uma visita inesperada. Espalhafatosa, é verdade, mas não chegou a chamar atenção.

Um calor agradável se espalhou pelo meu corpo, lentamente, como um aquecedor velho que briga com o frio. O silêncio me envolveu logo depois, como o abraço de um velho amigo. Um leve sorriso dançou em meus lábios, quase imperceptível para qualquer observador casual. Por último, as luzes se apagaram. O horizonte enfim vencendo sua luta contra o sol.

E lá no fundo eu não sabia se já era noite, ou se a noite era eu.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Versinho vazio

Hoje escrevi um verso
Afirmando que não há mais tempo
Nem disposição de versar.

Há tanta saudade de um dia que a inspiração me envaidecia
E com alegria eu escrevia
Um verso que nada dizia.

Acho que na arte de nada dizer me mantive.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Voltando para São Paulo

Eu vou de Peruíbe
Subindo a serra num ônibus ruim
Lembrando do mar lamacento
O meu companheiro na estada aqui

Enquanto eu estive, choveu
A grama está alta e os preços, enormes
O próprio turismo está baixo
Me resta a água e os seus coliformes

Tô sentindo um frio desgraçado,
O ar condicionado não tem regulagem.
A paisagem até que é bonita,
Mas é esquisita a tal da saudade.

Mesmo sem motivo aparente,
A canalha indecente que agora me aperta
Acerta quando se decide
No ano que vem voltar pra Peruibe.

domingo, 20 de dezembro de 2009

VIAGEM PAÊBIRÚ I (ENCONTRANDO O GRITO)


Eu, esse peso urbano, avenidas e concreto nas palavras,
Durmo e engulo fumaça, e máquina, telas, e-mails.
Meus sonhos anunciam:

Você não pode perder! É a última chance! Últimas peças no estoque!
compre dois leve um! Pra fazer você feliz! Porque você merece!
Seja! Faça! Tome! Coma! Durma! Vote! Pare! Vá! venha!
Pra fazer você feliz! dois por um!

Você merece... Você merece...

Meus ouvidos se inundam
Vis trombones:

Cala a Boca!

Íntimo outdoor piscando o vermelho:

Cala a Boca!

...Sórdido letreiro!

Cala a Boca!




(...)




Mas algo me grita inteiro!

VIAGEM PAÊBIRÚ II (REENCONTRANDO O OLHAR)


O olho da dor – o gozo da rasteira?
O olho que adentra e vibra pedindo derrota?
Perdi-me de suas janelas...

As casas coloridas, as pedras, olho de irmão,
Olho poeta, que risca fogo no céu, inventa palavra,
Dança na roda, o pé bate de um lado, o mundo gira,
no passo da volta só o novo, negras, vestidos estampados

Está aceso:

Meu olho queima!

Trago:

O olho vivo.

Solto:

Minha cegueira.

O vento dilacera o fio branco da fumaça
Não há mais forma nisto tudo!

(des)for(matei) de fome!

O olho de quem?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Rascunho>>

Rascunho>>
cada dia mais saudades sinto de ti>
diante desta ausência que não me faz esquecer>
que em cada momento de todo o instante>
existe a semelhança da tua alma com a minha.>>

Que nossos pensamentos são iguais,>
como iguais são as opiniões,>
os nossos gostos e os dessabores>
iguais somos nós.>>

Iguais até na diferença>
Diferentes nas igualdades>
Igualmente distantes>
E espiritualmente próximos.>>

Não tão distantes, quanto sinto>
Pois, estamos unidos pelo mesmo sentimento:>
SAUDADE.>

usspicui

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Pele de Onagro e a Morte no Horizonte da Existência

Dostoiévski colocou uma questão intrigante e desafiadora: Se não há imortalidade, tudo é permitido? De que modo censurar em alguém o prazer vicioso e sem limites do presente, em prol de um prazer de um futuro incerto de uma vida virtuosa pautada pela sabedoria?

Balzac, escritor francês do século XIX, escreveu várias obras de uma qualidade elogiável. Uma destas foi o romance A Pele de Onagro, primeira dele que se destacou no meio crítico. É um romance que faz a mistura de elementos realistas e fantásticos. Embora original, tem um enredo que lembra um pouco o Fausto de Goethe, que insatisfeito com os frutos de sua vida intelectual, vendeu a alma ao diabo a fim de obter poder e experimentar um sentido satisfatório na vida.

Raphäel é o protagonista principal. Jovem pobre, de talento intelectual distinto e com uma insaciável vontade de experimentar os prazeres de uma sociedade parisiense aristocrática, cheia de encanto, com suas mulheres coquetes, com seus banquetes e todos outros atrativos de uma vida voltada ao elegante, ao extravagante, ao belo, ao alegre e ao dinheiro. Após desprezar Pauline, moça linda, por ser pobre, apaixona-se por uma mulher coquete e sem coração Fedora. Enfim, desprezado friamente por esta, apesar de todos sacrifícios financeiros, feitos sob a falsa aparência de status e riqueza, o mesmo se lança à vida do jogo onde encontra sua ruína total. Nesta situação deseja morrer.

No dia que decide se matar, encontra um velho que lhe oferece um talismã mágico, uma pele de onagro (uma espécie de jumento do oriente). Nesta havia uma inscrição em sânscrito: "Se me possuíres, possuirás tudo. Mas tua vida me pertencerá. Deus quis assim. Deseja, e teus desejos serão realizados. Mas regula teus desejos por tua vida. Ela está aqui. A cada desejo, decrescerei assim como teus dias. Queres-me? Toma-me. Deus te atenderá. Assim Seja."

Raphäel aceitou possuir o talismã, sem levar muito a sério as consequências do poder destruidor do mesmo. O primeiro desejo foi participar de uma grande festa, cheia de orgias, com convidados ilustres, jovens, alegres e intelectuais, com belas mulheres ardentes e com muita bebida. O que aconteceu. E depois desejou ficar milionário. O que também aconteceu. Tal foi a surpresa dele quando percebeu que a pele de fato estava diminuindo.

É neste ponto que a morte surge no horizonte da existência. Raphäel apercebeu-se de que a cada desejo satisfeito sua vida ia se aproximava do fim, por conta do pacto que fez ao tomar para si o talismã. Interessante é que quando vivia numa situação de pesar, sofrimento, humilhação e pobreza, a vida era-lhe desinteressante. Mas, agora, tendo todo poder para desfrutar da fama e dos prazeres, a vida agora lhe aparecia como algo de alto valor. Temendo a morte, Raphäel tornou-se praticamente um eremita, isolou-se na sua mansão a fim de não se colocar em situações nas quais seus desejos pudessem ser despertados. Mas, não podia evitar o contato social, que aos poucos foi lhe seduzindo.

Durante todo o restante do livro, Balzac mostra a relutância e os cuidados de Raphäel para adiar sua morte, o que era algo inútil. Pois a morte se afigurava como uma realidade inevitável, uma vez que era impossível viver uma vida sem desejos. Porém, surge uma questão para o leitor: Inevitável não é a morte para todos os seres humanos, independente do talismã ou não? Eis uma das condições da existência. Condição esta que torna a existência humana, caracterizada como uma infinda fuga do presente, como uma fuga para o nada. O homem que se orienta sempre a um futuro, vislumbra no horizonte da existência a Morte.

Que vale ter um poder de satisfazer todo desejo se este poder não é suficiente para deter o destino inexorável que é a Morte? Neste contexto de uma existência condicionada à mortalidade, que implica na finitude da vida, na limitação e na restrição de uma vida insaciável de desejos, surge a questão prática de como se portar na vida. Orientar a existência à busca da virtude e da sabedoria ou então ao esgotamento de todas energias na busca por uma satisfação, inconseqüente, de todos os desejos, usufruindo de um prazer instantâneo e vicioso?

Nesta obra Balzac desafia-nos a censurar racionalmente a prostituta, que imprudente, cheia de vícios e extravagâncias interpelada sobre seu futuro responde: "O futuro? ... Que é que chama de futuro? Por que hei de pensar numa coisa que ainda não existe? Nunca olho para trás nem para diante de mim. Já não é bastante ter de me ocupar com o dia inteiro duma vez só? Além disso, o futuro já conhecemos, é o asilo." Preferindo viver uma vida voltada aos prazeres, enquanto durar os encantos da beleza, esta mulher prefere a vida cheia de vícios, ciente de que possivelmente terá uma velhice desconfortável e sem encanto desprezada pelos homens. Raphäel parece incapaz de censurar esta mulher e mesmo intrigado com o comportamento da prostituta, reflete através de uma pergunta retórica com seu amigo que independente do modo de vida "quer vivamos com os sábios ou morramos com os loucos" o resultado é, cedo ou tarde, o mesmo.

Concluindo, Balzac coloca em sua obra, A Pele de Onagro, a questão do significado da existência e o impacto da morte sobre ela, fazendo refletir sobre a fragilidade até mesmo de um poder ilimitado para satisfazer um querer insaciável. E por fim fica a questão: que diferença faz para um ser, que só pode vivenciar um presente fugidio, o estilo de vida vicioso ou virtuoso, sábio ou louco, prudente ou inconseqüente, se a morte até agora tem se mostrado como um destino inevitável?

Johannes Alienus Amens.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Macbeth - Destino e Liberdade: Uma Leitura Existencialista do Macbeth de Shakespeare

Macbeth foi um personagem cruel de uma das mais sombrias peças teatrais que Shakespeare escreveu, cujo título leva o mesmo nome de seu protagonista. A obra, mesmo sendo, é claro, uma ficção explora um lado obscuro da humanidade, cuja análise fornece elementos esclarecedores das condições existenciais do homem.

A presença de figuras mitológicas e sobrenaturais, tais como a deusa grega Hécate, espíritos e fantasmas, bem como o papel proeminente das três bruxas, com todo enredo girando em torno do Destino e das Profecias feitas a Macbeth e a Banquo, logo no início, podem levar à uma idéia de que Macbeth tenha sido apenas um fantoche nas mãos da Necessidade, a cumprir um Destino, uma vez que este foi traçado a priori por forças "sobrenaturais".

Logo na primeira cena do primeiro ato, aparecem as três bruxas, cientes dos acontecimentos políticos, aguardando o final duma batalha, em que Macbeth estava participando, para poderem então de modo premeditado se reunirem e se encontrarem com este no pântano. E este encontro acontece logo após o Rei Duncan ter nomeado Macbeth barão de Cadwor, recompensado-o pelo modo como lutou e se portou na batalha. Neste ponto do drama, Macbeth é visto como um herói, homem nobre, digno de honra e de confiança. Uma imagem totalmente oposta da que ele veio a ficar sendo conhecido, como tirano sanguinário cujo nome tinha sinônimo de horror.

Sugestiva são as palavras finais das três bruxas no ato 1, cena 1: "Faire is faule, and faule is faire..." que podem ser traduzidas com uma expressão paradoxal: "o belo é feio e o feio é belo". Esta idéia é marcante em toda obra, onde os julgamentos dos personagens estão constantemente equivocados, tomando várias vezes o nobre pelo vil e o vil pelo nobre. Macbeth, visto como herói pelo Rei Duncam, revela-se depois como pior do que o antigo barão de Cawdor, que se rebelou contra o reino e foi executado por traição. É interessante esta idéia de ambiguidade, pois a existência sendo distinta da essência, carrega em si toda uma série de ambiguidades, onde num movimento dialético, alternam-se elementos contrários entre si, na formação de uma síntese, como o feio e o belo, que às vezes coexistem numa mistura estranha.

Esta tragédia gira em torno da idéia lançada no primeiro encontro das bruxas com Macbeth e Banquo. Elas dirigem àquele três saudações, chamando-o primeiramente de barão de Glamis, depois barão de Cawdor e por fim de futuro Rei. Neste momento Macbeth ignorava que o Rei Duncam o havia nomeado barão de Cadwor. E fica surpreendido com tais saudações. Depois de inquiridas, as bruxas também se pronunciaram acerca de Banquo, dizendo-lhe que este não seria rei, mas teria filhos reis. Aqui, Macbeth e Banquo são apresentados a um Destino "traçado". Mas, será que este estava mesmo determinado de antemão?

Embora, Shakespeare faça uso de figuras sobrenaturais, míticas e fantásticas, pode-se notar que as ações de Macbeth, bem como os acontecimentos que o levaram a ser rei e mais adiante levaram à sua morte, seguem um curso bem natural. As palavras das bruxas, mais do que profecias, podem muito bem ser entendidas como motivadoras e manipuladoras, explorando a vaidade e orgulho das condições psicológicas humanas de Macbeth e Banquo. Afinal, quando elas o saudaram de barão de Cawdor, ele já havia sido nomeado.

Macbeth então tem diante de si um Destino anunciado. Poderia evitá-lo? Em sua vaidade e em seus desejos mais ocultos do coração desejava ser Rei e portanto escolhe ir ao encontro de seu Destino. Mas, ele não se coloca como alguém passivo, esperando que a Necessidade lhe torne Rei, mas ele mesmo dá um jeito de ir ao encontro de seu Destino anunciado. No começo, houve nele uma luta entre o ser (seu desejo) e o dever-ser (obrigações morais). O ser do desejo de ser Rei conflitava contra o Dever-Ser moral de não atentar contra a vida do Monarca. Porém, com a influência "maléfica" de sua esposa, Lady Macbeth, a quem relatou apenas parte das profecias, omitindo as palavras proferidas à Banquo, ele então comete o assassíneo do Rei Duncan, aproveitando o fato de que este estava hospedado em sua casa, durante uma noite. Um ato visto como altamente imoral e covarde.

Após o fato consumado, Macbeth passa a sofrer dos sintomas da culpa, sinal de que ele se sentia responsável e livre diante da escolha que fez. Ele matou o Rei, sujou as próprias mãos de sangue, num ato vil e terrível, digno de toda censura. Como sintoma da liberdade e responsabilidade, ele e a esposa passaram a ser atormentados pela consciência e sentimento de culpa.

Um ato assim, do assassíneo do Rei, precisa ser mantido, consequentemente para manter a situação sob controle, outros crimes surgiram à medida que outros personagens surgiam como ameaça. Chega um momento que Macbeth inverte o status de sua relação com o Destino, que no começo era desejado, agora repudiável. Ele então passa a lutar contra o mesmo Destino à qual pouco tempo antes, ele mesmo fez questão de ir ao encontro. Por exemplo, Banquo passou a ser uma ameaça, pois o destino foi o anunciou como sendo aquele que teria filhos reis. Macbeth se revolta então com a idéia de que tudo o que ele fez, todo tormento à qual se submeteu, tenha sido realizado em benefício de outros e que no fim, por meio de sua ruína, reinaria os filhos de Banquo. Por isto providencia a morte de Banquo e de seu filho com o objetivo de extinguir a ameaça nadificadora do seu Destino. O fato de Fleance, filho de Banquo ter escapado, funcionou como uma fonte de angústia. Ele não poderia viver agora em paz, pois o filho de Banquo vive. E o Destino figurava no campo das possibilidades futuras.

A figura mitológica da deusa grega Hécate, mais as sobrenaturais aparições de espíritos, surge neste contexto auxiliando as três bruxas para o desfecho final da trama. Mas, novamente, o que temos são pronunciamentos dirigidos à Macbeth funcionando mais como elementos indutivos e provocadores do que profecias. O objetivo destas figuras maleovolas era então produzir uma Confiança excessiva em Macbeth, que segundo Hécate consiste na maior inimiga do homem. Macbeth é incitado então a atentar contra a vida do nobre Macduff. A segunda aparição de modo dúbio e enigmático faz com que Macbeth pense ser alguém praticamente invulnerável, dizendo que este não poderia ser morto por nenhum homem nascido de mulher. Por fim, a ele é dito por uma terceira aparição: "Seja valente como um leão, orgulhoso, e não dê atenção aos outros. Eles que se irritem, eles que se queixem, eles que conspirem onde bem entenderem. Macbeth jamais será vencido, a menos que o Grande Bosque de Birnam marche contra ele, vencendo as doze milhas até os altos da Colina Dunsinane." (Ato IV, Cena I).

Ora, aqui Macbeth é induzido a se comportar imprudentemente, segundo as intenções de Hécate: "Ele vai menosprezar o Destino e zombar da Morte, e nutrirá suas esperanças sem levar em consideração o bom senso, a delicadeza de espírito e os receios dos mortais." (Ato III, Cena V). Na trama, o filho do Rei Duncam, junto com Macduff, cuja família havia sido morta cruelmente a mando do tirano, receberam apoio militar dos ingleses para investir e destituir Macbeth, que com seu excesso de confiança agiu imprudentemente, não fazendo nenhum esforço para se proteger do perigo.

Sua esposa, atormentada pela culpa, sentindo constantemente suas mãos sujas de sangue, morre num ambiente de desolação. Ao receber a notícia da morte de sua esposa ele tenta minimizar o fato com palavras carregadas de um eloquente pessimismo existencial:

"Ela teria de morrer, mais cedo ou mais tarde. Mais tarde haveria um tempo para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco - faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado." (Ato V, Cena V)

Logo após falar isto, Macbeth tem sua confiança abalada, quando é noticiado que o Grande Bosque de Birnam estava marchando contra ele, isto porque os soldados inimigos se camuflaram com os galhos deste bosque, fazendo uso de uma tática de guerra. E depois quando fica sabendo, no momento que lutava com Macduff, seu inimigo irado e com sede de vingança, que este não nasceu de parto normal. Inconformado e não querendo ser humilhado, não se rende, lutando até ser decapitado por Macduff.

Lendo esta tragédia pode-se perceber que em todo momento Macbeth se encontra numa situação de liberdade. Uma liberdade relativa às condições existenciais, pois esta liberdade coexiste com o Destino e com ele se relaciona. Porém, este Destino não é caracterizado por um elemento essencialista e sim como sendo a consequência das escolhas livres que faz Macbeth. A liberdade não precisa ser pensada como sendo algo pertecente somente a quem é onipotente sobre as condições existênciais, mas está presente sempre que existe alguma forma de possibilidade de ação associada às escolhas mas poder de execução. Sob as condições psicológicas, Macbeth escolheu satisfazer seu desejo de se tornar Rei, mesmo contrariando sua própria consciência e o bom-senso e as consequências de um regicídio. Escolheu acreditar apenas naquilo que a ele era favorável. Agiu de má-fé ignorando a Razão nas situações mais cruciais, que no fim culminaram em sua morte.

Concluindo, ao escolher ser Rei daquela forma, Macbeth traçou de modo livre, para si mesmo um Destino, cujo fim não tinha muitas chances de bom êxito. A obra termina e não menciona nada sobre quem sucedeu o trono. O futuro fica em aberto. O personagem Shakespeareano é um personagem humano, condicionado pela estrutura psicológica, física e social e nestas condições, sendo livre para fazer escolhas, sempre tendo como possibilidade ir por outro caminho, mesmo que seja o caminho da nadificação total da existência na recusa de se submeter às condições existenciais.

Johannes Alter.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

(Com)Sequências


Um olhar
Um sorriso
Um carinho
Um beijo


Uma troca de olhares. Coisa parecida com aquele filme francês que você ama, mas que tem uma cena que você nunca entende. Essa é a cena. Algo despretensioso, acidental, sem começo, sem meio, sem fim. Apenas uma troca de olhares...

O sorriso vem depois. Surge "mecanicista". Quase uma obrigação. O simples ato de contrair e esticar músculos da face. Depois, larga a metalização e torna-se humano. Tão humano quanto podemos ser. Sai do frio e transforma-se em algo verdadeiro. Ai deixa de ser humano...

O carinho segue. A mão que acaricia a mão amada, que brinca com os cabelos, que roça o rosto (que ainda contém o sorriso "não-mais-humano" da etapa anterior), a troca de calor, de sensações... Que faz carinho ser carinho. Carinho de criança.

Surge o beijo. Molhado, seco, longo, veloz, roubado, "vagabundo", "principe", quente, frio, escondido, escancarado, timido, desinibido... Beijo.

Beijo, carinho, sorriso, olhar... e tudo se faz assim, belo e simples...


*Agradecimentos à Lorena pela ajuda na pesquisa de uma boa imagem...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Quanto pesa a morte de um trabalhador?




Tomba mais um - guerreiro de mão calejada, herdeiro desta luta.
Tomba mais um – filho esquecido do estado, destratado em desmedida.
Leva consigo o trabalho, e a pesada memória, de sua vida roubada.

Não será lido nos jornais, nem debatido nos bares,
É mais um que cai na vala do inconsciente coletivo,
Sepulcro da amnésia diária, da lembrança proibida, que nos entala à mesa,
E nos cega de melodramas e sonhos voláteis, com propaganda e sorrisos.

Amanhã pegaremos o ônibus, leremos um livro, compraremos pães, iremos a festas.
Engoliremos calados: a educação das fileiras, o destrato, e o aumento dos preços.
Sem que nos pese a morte, sem que nos pese a fome, sem que nos pese a dor.

Alheios à sua coragem, e de tantos outros, ouviremos um parecer técnico,
Uma análise sócio-econômica, uma mensagem bonita no programa matutino.
Choraremos por isso, e pelo final da novela, glorioso destino do moçinho.

Mas, não daremos lágrimas à sua morte.

Enquanto nós, frios corpos, urbanóides frenéticos a procura do melhor lugar na prateleira deste hipermercado de trabalho, buscamos um sentido, uma droga, um remédio pra depressão, um casamento, uma vida perfeita,
Outros pelejam a vida, dia a dia,
Negando o morrer constante,
A dignidade usurpada.

Levantam a cabeça – longe de nossa insensibilidade – alargam seus braços,
Atiram seus gritos, denúncias, sua força coletiva, sua incansável firmeza.
Destinam-se a enfrentar, corajosos, as encomendas de morte destes covardes de ternos, de posses e possessões.
Mil vezes Covardes! Que pra silenciar o povo, pagam por força e capuz, armadilha, escopeta, e tiro na nuca.

Tomba mais um - por manter seu punho erguido, e não minguar de febre ou fome.
Sofre o seu povo, com suas flores de luta e seu vermelho encarnado a tremular nas bandeiras.
Tomba mais um...
Quantos mais serão necessários? Para que nos canse a morte?
Quantos mais serão necessários? Para lutarmos em vida?

* sobre uma liderança do Movimento dos Atingidos por Barragens, executado numa emboscada em 29 de julho de 2009, em Pedro Velho, reassentamento dos atingidos pela construção da barragem de acauã, em Aroeiras – PB.
*vídeo sobre a situação dos atingidos pela barragem de Acauã - www.mabnacional.org.br/noticias/150609_video_acaua.html

domingo, 2 de agosto de 2009

Silêncio


[...]








































NADA!











































Agora só consigo escutar sua ausência de resposta.




























Eis que reina o silêncio.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Declaração Universal dos Seres Aleatórios


Alguns textos vem e vão na nossa vida. Esse constantemente surge para mim... Alguns conhecem...

Declaração Universal dos Seres Aleatórios


Somos do sol e de lua, mas podemos xingá-los.

Somos Headbangers, punks, goths, mas a música vizinha sempre atrai.

Somos Ateus apegados a Deus

Somos a sinestesia

Somos a bipolaridade

Somos a verdadeira esquizofrenia do mundo.

E talvez, a sua maior diversão

Não temos futuro, não temos dinheiro, mas temos bebida!

Somos frutos do acaso.

Filhos bastardos da vida, e sem direito a herança!

Nas nossas veias não correm sangue, correm dados

Padrão genético de nossa aleatoriedade.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ausência

Ente da realidade sensível,
Procuro-te com meus olhos,
Ávidos e ansiosos para te encontrar.
Mas, em todo lugar,
O que vejo,
O que percebo,
O que apreendo
É apenas a ausência de ti.
Examino toda extensão do Ser,
Do ser sensível da minha realidade.
Mas, em nenhuma parte,
Eu consigo encontrar-te.
Como podes não-ser?
Se até agora a pouco eras?
Mistério que consome minh'alma.
Que sob o peso do nada, desaba.
Não consigo entender o porquê.
O porquê do ser pleno não me satisfazer.
O porquê do não-ser ser
Fonte de Melancolia,
Causa de Temor,
Motivo de Angústia.
Mas, o ente está aqui!
Está aí!
Está por aqui!
Mesmo eternamente sendo,
Em breve, desvanecerá como fumaça.
E tudo quando vou ver.
É a ausência de ti!
E mais um pouco, ausência de mim.
De um Mim que sempre foge,
Que escapa de mim.
Oh, que dialética cruel e generosa da vida!
Marca perene da existência,
Paradoxo absurdo que mistura
A dor e o gozo, o pesar e o prazer,
Na unidade sintética de meu ser.

Johannes Absente, 8 de Julho de 2009.

domingo, 5 de julho de 2009

A alucinação


Do anúncio:

Franze o aposento aos demais
Com presas miúdas e atemporais
Defronta e se capta nos terremotos
Nas dunas se tinge, fecunda aos remotos

Apalpa lobos, colore o jardim
Cerca nevoeiros, vestindo cetim
Rompida esbelta, a sombra confronta
O que alvoroça os pardais pela zona

Ela se reserva entre obscuros planos
Que são eminentes dos punhais profanos
Num ato espalhafatoso, é breve o reboliço
Das testemunhas distraídas desse precipicio

Sem pudor, aviso ou qualquer vergonha
Vinda dos vermes latentes, enfadonha
Encravada como gramínea, apetece
Instigada naquilo que perece

Sedenta, pálida, encarnada e hostil
A alucinação me é sóbria e sutil

Carlinhos Black

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Noite de Inverno

Olhe em volta e veja
nada volta no final
É tudo um grande erro
de quem ama e quer

Ela não é apenas mulher
é fruto do teu desejo
que, bruto e carnal,
parece chama acesa

Ó grande e fraco aprendiz
indeciso pequeno e roto
quão miserável é tua sina
se por ela não lutas mais

te perdes nos vendavais
ao saber que tua menina
por querer de um destino louco
é de outro, meretriz

olhe em volta e veja
nada foi, a final
se perdeu em vontades
grandes tentativas nulas

abertas as ruas rubras
se esvai em partes
e o fluido bruto e carnal
pelo chão se despeja

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A Eterna Duração da Efemeridade.


Na infinita extensão da eternidade
O que é a vida de um ente finito?
Cujo existir essencialmente é um não-ser.
Um não-ser isto, um não-ser aquilo,
Mesmo sendo isto, mesmo sendo aquilo.
Efêmera é a vida, é como um sonho,
Mas, também como um pesadelo.
É um faustivo ou trágico impermanecer,
Um impermanecer no gozo e na alegria,
Um impermanecer na dor e na tristeza.
Vejam o presente! Tarde demais!
Eis que já se foi, é um passado.
Avista-se ao longe o Futuro.
Mas, ele é névoa de indeterminação.
Eu passei por aqui! Eu existi. Eu vivi.
Vivi momentos faustivos de contentamento.
Que elevaram ao êxtase a minh'alma.
Mas, todos estes momentos são não-ser.
Vivi momentos de pesar, angústia e vazio.
Que esmagaram com peso infinito meu coração.
Mas, todos estes momentos, também, são não-ser.
Toda existência é um eterno infindo perecer.
Perecem belezas,
Perecem nobrezas,
Perecem as dores,
Perecem os amores,
Perecem os sentimentos.
Que busca o ente finito?
Que insensata é esta busca inútil por existir!
A vida é toda ela feita de amor, ou seja, de gozo,
Ou seja, de dor.
Pois o que se ama perece, desaparece,
Pois o amar desvanece, se esquece.
Mas, só é dor, porque foi gozo.
Só é não-ser, porque foi ser.
Quem experimenta as plenitudes da vida,
Maximiza as angústias do vazio nas perdas.
Lamentar pra que? As coisas são o que são.
Algumas coisas duram mais,
Outras duram menos,
Mas, todas elas passarão do ser para o não-ser,
Para que o não-ser passe a ser.
E assim, infinda e infinitamente,
Gira a roda de Íxion por toda eternidade.

Johannes Absente, 19 de Junho de 2009.